Filme nacional, um ano memorável

Participação brasileira no mercado em 2010 chega a 20%

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2010 | 00h00

Graças a Tropa de Elite 2, Nosso Lar e Chico Xavier, 2010 terminará como um ano memorável para o cinema nacional, com participação no mercado de cerca de 20%. Ou seja, em cada cinco ingressos vendidos este ano, um terá sido para um filme falado em português.

Após escapar da pirataria prévia, Tropa, fenômeno sem precedentes, deverá fechar este mês com 10 milhões de espectadores. Nosso Lar, que está saindo de cartaz, passadas dez semanas da estrondosa estreia, e Chico - ambos do recém-revelado filão espírita, turbinado este ano pelo centenário do médium mineiro - somam perto de 7,5 milhões.

O ano começou mal, com a promessa Lula, O Filho do Brasil sendo esmagada por Avatar. Em abril, Chico, dirigido pelo mesmo Daniel Filho que alavancou os números em 2009, com Se Eu Fosse Você 2, mudou essa história.

Em setembro, a superprodução Nosso Lar surpreendeu logo na saída: foi das maiores aberturas da Retomada - junto, aliás, com Chico e Se Eu Fosse Você 2, todos com mais de 540 mil pagantes nos três primeiros dias em cartaz.

Em 2009, a participação do cinema nacional havia sido de 17%. Foi definitivamente o ano das comédias (Divã, Os Normais 2 e Mulher Invisível sagraram-se campeões de bilheteria).

Trailer. Este ano a aposta do gênero ainda está por vir: Muita Calma Nessa Hora, de Felipe Joffily, que estreou sexta-feira e já sai na frente pelo fato de seu trailer ter sido exibido antes das sessões de Tropa.

E, dentro do filão religioso, ainda teremos Aparecida, Padroeira do Brasil, de Tizuka Yamazaki, que entra em cartaz dia 17 de dezembro e está sendo considerado uma reação católica à "onda espírita".

A referência em termos de resultados é 2003, ano de Carandiru, Os Normais, Lisbela e o Prisioneiro, Maria, Mãe do Filho de Deus, Casseta & Planeta: A Taça do Mundo É Nossa e Deus É Brasileiro, quando o patamar chegou a 21,4%, com um público de 22 milhões de pessoas.

Eram mais filmes brasileiros atraindo público, é verdade. Mas o fato de este ano, como 2009, o foco ter ficado em apenas três títulos (sendo que a produção brasileira total ficará em cerca de 70 longas), não é ruim como pode parecer. Até porque a média brasileira tem ficado mesmo em três ou quatro grandes bilheterias (mais de 2 milhões de pessoas) ao ano.

"É assim no mundo todo. A indústria é feita disso e de filmes médios (entre 400 mil e 800 mil espectadores)", diz Walkyria Barbosa, da Total Entertainment, produtora de vários dos blockbusters citados, e que para 2011 aposta em Assalto ao Banco Central, estreia de Marcos Paulo na direção de um longa.

"Estamos começando a fazer algo que historicamente nunca conseguimos: lançar filme de sucesso e de qualidade", diz Paulo Sérgio de Almeida, especialista em análise do mercado cinematográfico no Brasil.

Carlos Eduardo Rodrigues, diretor da Globo Filmes, que só tem motivos para festejar 2010 (Tropa, Nosso Lar, Chico...), reconhece que 2003 foi "mais rico cinematograficamente" e que os prodígios recentes não são facilmente repetíveis.

Nicho. "Tropa é um fenômeno raríssimo, que acontece de 50 em 50 anos. E este ano tivemos o centenário do Chico Xavier, então, descobriu-se esse nicho. Mas isso não acontece sempre", diz Rodrigues. Para ele, não dá para afirmar que o crescimento da participação dos filmes brasileiros é uma tendência.

"O problema não é falta de salas, nem o preço dos ingressos, a grande questão está no conteúdo adequado ao desejo do espectador. Por exemplo: ano passado tivemos várias comédias e, este ano, nenhuma. O público infanto-juvenil, da Xuxa e do Renato Aragão, nós entregamos ao mercado americano. Temos uma Agência de Cinema (Ancine) e ninguém vê isso."

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