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Fábio Porchat
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Filme nacional

Se você entrar em uma videolocadora (sim, elas ainda existem), as prateleiras, como vocês sabem, são divididas em gêneros. Lançamentos, drama, comédia, romance, suspense, terror e filme nacional. Sim, filme nacional é um gênero. Porque, por mais drama que ele seja, ele não vai se livrar nunca da sua maldição eterna. Ele foi feito no Brasil, ele é falado em português e tem atores brasileiros! O público ainda tem um preconceito muito grande com as nossas produções, isso é até papo antigo. Seja por qual motivo for, assistir a um filme nacional no cinema só é a opção se acabaram os ingressos pra O Homem de Ferro 3, O Homem Aranha 4 ou Transformers 5.

Fábio Porchat, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2013 | 02h11

O que me assusta um pouco é a velha história de "um peso, duas medidas". O público não perdoa a gente. Se assiste a um filme nacional ruim, sai revoltado do cinema, diz que nunca mais vai fazer isso de novo e que sabia que esse filme devia ser uma merda! Se assiste a um filme americano ruim, sai rindo, justamente porque o filme é ruim, vai comer um japonês e comenta que está animado pra continuação. Tenho uma teoria de que uma das culpadas é a legenda! Quando as pessoas perdem tempo lendo a legenda, não prestam tanta atenção no filme.

E sinto também que nós nos cobramos muito. Só é bom se formos campeões do mundo. Segundo lugar é um lixo! Filme brasileiro, se não ganhar o Oscar, é podre! Um dia, assistindo no cinema ao filme brasileiro O Divã, senti o exagero e o rigor na cobrança do público. Lilia Cabral chega de carro no hospital pra visitar sua amiga que está no leito de morte. Ela vem dirigindo e na porta do hospital ela encontra uma vaga e estaciona. Nesse momento todo o cinema reagiu: "Até parece que ela ia encontrar uma vaga". Meu Deus! O Stallone invade a União Soviética só com um cadarço de bota, um canivete e uma pinça, salva o mundo da terceira grande guerra e tudo bem, mas a Lilia Cabral achar uma vaga, aí não. Pra cima de mim não! Não força essa barra!

Não quero dizer que os filmes nacionais são maravilhosos e que os americanos são horríveis, eu inclusive assisti ao filme do Stallone e mal posso esperar pela continuação, quando ele agora invade Marte, que está dominada pelo tráfico húngaro. O que eu quero dizer é que estamos em desvantagem. Começamos a corrida com o "adversário" três voltas na frente. Mas, e sempre tem o "mas", percebo que algo está mudando! As comédias brasileiras estão, de certa forma, redimindo o cinema nacional. A comédia brasileira está colocando os DVDs e Blu-Rays do Cilada.com, E Aí, Comeu?, De Pernas pro Ar e afins, todos numa mesma prateleira. Ficam agora em Comédia!

Claro. As pessoas não vão assistir a uma comédia nacional, hoje, elas vão assistir ao filme do Bruno Mazzeo, do Leandro Hassum, da Ingrid Guimarães, como assistem ao filme do Adam Sandler, do Steve Carell e do Eddie Murphy. Porque não importa se você vai rir em português ou em inglês, o que importa é rir. O humor virou uma espécie de cota. Ele pode fazer parte dessa divisão de prateleira. Eu espero, um dia, estar perambulado por uma, ainda firme, vídeo locadora, como quem não quer nada, e encontrar Chega de Saudade, Central do Brasil e O Som ao Redor ao lado de Razão e Sensibilidade, Retorno a Howard's End e Beleza Americana soltos ali, pela categoria Drama. E deixar a pecha de "filme maldito" pro cinema europeu.

*

Ah é, nem me apresentei! Sou o Fábio e estarei agora aos domingos por aqui! Que honra poder dividir espaço com Verissimo que foi quem, mal sabe ele, me fez começar a escrever.

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