Filme na raça

Sem leis de incentivo, 'Lascados' é rodado com orçamento de R$ 2 mi

JOÃO FERNANDO, SÃO MATEUS (ES), O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2013 | 02h04

Cena 1: Jovem recém-formado, com um roteiro de longa-metragem na mão, bate à porta de produtor. E insiste que a ideia é boa. Três meses mais tarde, o texto passa por dez tratamentos e o projeto entra em pré-produção. Assim começou a história de Lascados, road movie em formato de comédia adolescente rodado no mês passado sem participar de editais e tampouco receber financiamento de leis de incentivo.

"Li primeiro o roteiro e entendi que dali poderia surgir alguma coisa, mas sendo transformado em argumento, não em roteiro", relembra Marcelo Braga, produtor executivo da Santa Rita Filmes, empresa que resolveu bancar o longa, cujo orçamento já passou dos R$ 2 milhões antes da finalização.

Lascados narra a trajetória de Felipe (Chay Suede), Burunga (José Trassi) e Deco (Paulo Vilela), estudantes da zona leste de São Paulo que pegam escondidos a Kombi da mãe de um deles, usada para vender cachorro-quente, e seguem para o Carnaval da Bahia. Porém, no meio do caminho, o carro quebra e eles param no Espírito Santo, onde conhecem a jovem Cenilde (Paloma Bernardi), que seduz os três para fugir de São Mateus, cidade do interior do Espírito Santo onde parte das cenas foi rodada.

Com quase três décadas de experiência em TV e publicidade, Braga decidiu se arriscar na ideia do ator Manoel Batista Jr., de 24 anos, que nunca havia assinado um roteiro profissional. "Estou numa fase da vida em que voltei aos meus 19, 20 anos, com a coragem e audácia do começo da carreira. Acreditar nos sonhos é importante e acreditar no sonho de alguém poderia dar essa química", diz Braga.

Além das fichas na comédia, o filme aposta no apelo dos protagonistas - alguns deles são estreantes no cinema - para atrair os jovens. Paloma é conhecida pelos trabalhos em novelas como Salve Jorge, e Chay foi estrela do elenco da trama adolescente Rebelde, que se desdobrou em um grupo musical homônimo em turnê pelo País. Além disso, o ator tem mais de 1 milhão de seguidores no Twitter, entre eles meninas histéricas com potencial para formar filas nas portas das salas de exibição.

A pouca experiência dos dois atores na telona não preocupa o diretor Vitor Mafra, também calouro no cinema. "É meu primeiro longa, mas sou diretor há 20 anos. Já fiz curta, série e publicidade. Minha especialidade é a direção de atores. Preparei os dois, foi um período curto e intenso. Não trabalho com essa coisa da emoção, trabalho com técnicas de atuação. A gente está fazendo uma comédia. A preocupação é fazer a cena funcionar, eles se sentirem bem e presentes na cena."

Chay diz ter descoberto outra maneira de atuar. "Entre os três, talvez o meu (personagem) não seja o mais engraçado. Em Rebelde, eu não era o herói, era o engraçado. Aqui, eu não fui engraçado, fui o herói", filosofa ele, sem querer voltar às novelas da Record. "Não estou escalado nem super a fim de fazer. Tenho ideias que quero apresentar assim que voltar. A prioridade é meu disco."

Entre os desafios de Lascados está a direção de arte, pois o filme se passa em 1994. "Falei para fazermos um filme de época pela plasticidade dos anos 1990", justifica Braga. O excesso de tecnologia poderia resolver facilmente a situação dos personagens perdidos no caminho para a Bahia. "Não dá para usar aplicativo. Até tem o celular do pai do meu personagem, um tijolão", conta Paulo Vilela. Em meio aos itens de época, José Trassi, 28 anos, não pensa duas vezes ao apontar qual lhe chamou mais a atenção. "O walkman", cita o ator, que ao final do expediente surfava na praia.

Graças à sessões de surfe de Trassi, a equipe do longa consegui escapar de uma manifestação que fechou uma estrada na região. "Ganhei uma prancha de um cara que alugava para mim nas folgas. Quando passamos pela manifestação, o cara da prancha estava lá e ajudou a liberar (a passagem)", conta o ator. Parte da turma da produção que chegou depois não teve a mesma sorte e precisou dormir em outra cidade.

Ao redor dos quatro protagonistas estão personagens caricatos, como Jeová - o evangélico e conservador pai de Cenilde -, vivido por Guilherme Fontes. Dono de uma oficina mecânica, ele vai colocar os garotos para correr ao perceber que estão de olho em sua filha. E contará com a ajuda do filho Denis (João Côrtes), um adolescente esquisitão. O elementos de fábula ganham reforço com um curandeiro interpretado por Nando Cunha.

As últimas sequências, acompanhadas pelo Estado, aconteceram no antigo porto de São Mateus, ponto de referência no período colonial do País, habitado pela primeira vez em 1544. O lugar foi uma das locações de Sagarana, O Duelo (1974), filme de Paulo Thiago. Sem restauro recente, as casas centenárias foram pintadas pela equipe de Lascados, que precisará esconder prédios ao fundo por meio de computação gráfica.

"Levo uma frustração porque fizemos um filme 80% no Espírito Santo e a iniciativa do Estado não entendeu. Busquei recursos aqui, mas não tive a felicidade de obtê-los. Falei com secretários de cultura e chefes de gabinete. A promessa que tenho é de que irão contribuir para a fase de finalização. O distribuidor perguntou: 'Foi quanto? Tanto. Do bolso? Você é louco'. Estou apostando tudo."

A chegada dos atores a São Mateus deixou os moradores em polvorosa. Além dos que se tornaram voluntários para ajudar a equipe e fazer figuração, diariamente filas se formavam para tirar fotos e pedir autógrafos a integrantes do elenco.

"Estou me sentindo a Xuxa. Entramos na casa das pessoas todos os dias. Quando a gente chega aqui, não imagina como é. Ficam gritando, mandando beijo. Eles me apertam e falam: 'É ela mesmo?' Os menores perguntam como saí de dentro da TV", relata Paloma Bernardi.

Um fã caminhou 12 quilômetros para conversar com a atriz. "Ele diz ter sentido uma dor por não ter conseguido falar com o pai quando ele foi embora. Ele foi até o set e disse que precisava conversar comigo porque teve a mesma sensação. Chegou sozinho, debaixo da chuva."

Chay recebeu o carinho das fãs no dia de seu aniversário de 21 anos. "Uma menina encomendou um bolo à distância. Ela conseguiu entrar em contato com a cozinheira do hotel para fazer um bolo para mim. Também descobriram que eu estava machucado, com afta, e mandaram remédio. Reclamei em algum lugar e alguém soube. Mandaram até com a receita."/ J.F.

Persistência é o forte de Manoel Batista Jr., que bateu o pé para que Marcelo Braga aceitasse produzir Lascados. Nascido e criado em São Mateus, cidade de 100 mil habitantes, ele se mudou para São Paulo, onde fez faculdade de Rádio e TV e cursos de teatro.

Após escrever o roteiro, ele procurou diferentes produtoras. O jovem garante ter passado por experiências semelhantes às dos personagens. "Certa vez, um amigo e eu gostamos da mesma menina."

Além de acompanhar a confecção do roteiro final, assinado por Emílio Boechat e Marília Toledo, ele também tem um papel na trama. Manoel vive o policial Sabonete, capacho da delegada durona interpretada por Veridiana Toledo, que mantém os três protagonistas na cadeia. Ele ganhou notoriedade na terra natal. "Me tornei uma celebridade local", confessa ele, que recrutou a família. "Tenho 20 tios, chamei alguns para a figuração." / J.F.

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