Filme foi aviltado ontem - e hoje? é uma obra-prima?

Na sequência da entrevista, Wenders fala da exposição no Masp e do reconhecimento à versão integral de Até o Fim do Mundo.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2010 | 00h00

Por esse filme, você recebeu as piores críticas de sua carreira. Lembra-se da rodagem?

Comecei a escrever o roteiro em 1977, mas foi complicado viabilizar a produção, foi mais cara do que a de meus outros filmes. Tinha grandes nomes no elenco, filmagens nos quatro cantos do mundo. Estava na Austrália quando caiu o Muro de Berlim e tive a sensação de que estava "far faraway", muito longe de casa, e perdido. Quando lhes apresentei minha montagem, os produtores reagiram mal. Disseram que havia assinado contrato para um filme com duração máxima de duas horas e meia. Me fizeram cortar. Não me permitiram mostrar a versão integral. Em 1992, refiz a montagem e cheguei à duração de 280 minutos. Parece muito, mas é o tempo necessário para contar a história.

Foi um work in progress? Você demorou todo esse tempo para chegar à sua versão de Até o Fim do Mundo?

Não. Fiz a minha versão uns dois anos depois. Mas não estava autorizado a mostrá-la. Fiz isso somente uma vez, nos EUA, e a crítica que havia demolido o filme considerou a nova versão uma obra-prima. Inclusive, Até o Fim do Mundo foi considerado o melhor filme da década numa pesquisa.

O filme trata da questão da imagem. Um cineasta capta imagens para alimentar a engenhoca criada por seu pai para tentar reverter a cegueira de sua mãe. A questão da imagem está sempre no centro de seu cinema, e as novas tecnologias, também?

É impossível trabalhar com cinema sem se interessar pela questão da imagem, num mundo saturado delas. E as novas tecnologias estão mudando nossa atividade. Havia antecipado isso. Todo mundo dizia que as novas tecnologias iam abrir ainda mais o leque do fantástico e é verdade que muitos diretores estão criando mais e mais trucagens. Mas o reverso também é verdadeiro. Há hoje uma consolidação do documentário como tendência, em todo o mundo, e os diretores estão usando câmeras digitais, que facilitam a captação. Confesso que estou agora muito interessado no 3-D. Não sei se é realmente o futuro do cinema, mas é uma ferramenta muito rica e eu próprio estou gostando de utilizá-la.

O que você fez em 3-D?

Fiz um curta e parte do meu longa sobre Pina Bausch. Inclusive, o filme sobre Pina nasceu por causa do 3-D. Durante anos, nós tínhamos esse projeto de trabalhar juntos, mas eu não conseguia saber como. Um filme sobre Pina teria de se basear no incrível trabalho dela, na forma como se apropriava do espaço por meio de sua dança. Foi o 3-D que me possibilitou o aproach que queria.

O filme já está pronto?

Fica pronto no fim do ano.

Você vai com ele para o Festival de Berlim?

Ainda não sei, mas seria com certeza uma grande vitrine.

Você voltou a alguns filmes de sua carreira. Tão Longe, Tão Perto retomou Asas do Desejo e Estrela Solitária também retoma Paris, Texas. Concorda?

Não são sequências. Acho até que o fato de as pessoas pensarem em Tão Longe Tão Perto como sequência de Asas do Desejo prejudicou o filme, que é um de meus favoritos. Existem filmes de que não gosto. Fiz Hammett duas vezes por causa de problemas com a empresa produtora (e Francis Ford Coppola) e eles distribuíram a pior versão. Destruíram a outra, que era melhor. Com Tão Longe, Tão Perto, quis mostrar o que se passara em Berlim, após a Queda do Muro. Voltar aos anjos me pareceu uma boa ideia, mas em outro contexto. Pouca gente percebeu, mas gosto muito.

Estava em Salônica, na Grécia, quando houve seu encontro com Walter Salles para falar de cinema de estrada. Lembra-se?

Foi um belo momento. Walter é muito talentoso. Quando me iniciei no cinema, não tinha consciência de estar fazendo filmes de estrada. A paisagem sempre foi fundamental para mim. Nos filmes, a paisagem, está sempre cheia de gente, os personagens. Nas fotos, posso me impregnar do mistério desses lugares estranhos e quietos.

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