Filme evita polêmica fácil e tom ameno

Crítica

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2010 | 00h00

O documentarista escolhe seu sujeito (ou personagem) e a maneira de tratá-lo. Trabalhando, enfrenta o acaso e, se for inteligente, o assimila ao projeto. O acaso é aquilo que, em sua pesquisa prévia, não estava previsto. Em geral, essa abertura para a descoberta é o melhor presente que um documentarista pode receber. O cineasta que se ocupa de documentários está em melhor posição do que os outros para saber da rica imprevisibilidade do ser humano.

Tudo isso aconteceu com Toni Venturi em Rita Cadillac - A Lady do Povo. A começar pelo título, que lhe foi "soprado" pelo cineasta Djalma Limongi Batista, diretor de Rita no filme Asa Branca - Um Sonho Brasileiro (1981). Nesta história de um jogador de futebol (Edson Celulari), Rita tem um pequeno papel, que desempenha com intensidade. Djalma fala sobre ela no depoimento a Toni. Diz que, quando ela chegou ao set, foi uma decepção. Parecia uma mulher comum. Em cena, cresceu. Transformou-se no "Cadillac" rabo-de-peixe que lhe servia de (merecido) apelido no programa do Chacrinha. Djalma acrescenta, sobre a moça: "É uma lady, uma lady do povo."

Eis aí a senha. Alguém vindo do povo, que trilha um caminho inusitado e torna-se uma sex symbol, também das classes populares. Rita do Chacrinha, Rita dos presídios, Rita dos garimpos. Bem dotada de bumbum, a preferência nacional. Uma atriz da sensualidade, como reconhece o dr. Drauzio Varella, que a viu em atuação no Carandiru diante de uma multidão de presos que a cobiçava, porém com respeito. Outras dicas foram sendo dadas ao cineasta. Entre elas a divisão entre a "persona" Rita Cadillac e a mulher comum Rita de Cássia. Tudo ajuda na composição da personagem: essa dualidade, e a dignidade com que ela deve ser tratada. Tudo determina a maneira como a câmera é colocada, como o material é montado, enfim, com qual recorte do real se vai trabalhar.

Isso não significa que Toni Venturi trabalhe num registro politicamente correto que, como se sabe, é a melhor maneira de escamotear a realidade, jogando o que for minimamente polêmico para baixo do tapete. O diretor não ignora os percalços da personagem, e nem mesmo poupa cenas mais pesadas de sexo explícito, gênero a que Rita se dedicou já em idade pouco recomendável.

O contraste entre essa atriz do pornô e o vestido de noiva branco com o qual se casa já madura faz o filme vibrar, pois sua intensidade é dada por um ritmo oposto ao monocórdio. Há disparidades, arestas, surpresas e contradições que iluminam a personagem e, por isso, lhe conferem humanidade. Se as entrevistas caminham no sentido da unanimidade, o filme sabe onde encontrar aquilo que as problematiza - a própria fala da atriz (vamos chamá-la assim) em seus movimentos erráticos ao longo da vida evocada.

A opção, claro, é de respeito pela personagem. Mas, pela atenção ao contraditório, o filme se livra do tom chapa-branca. Por outro lado, uma vida como de Rita Cadillac/Rita de Cássia teria tudo para se prestar ao folclórico; ou tudo para ser pasteurizada pelo medo da incorreção. A virtude é manter-se nesse fio de navalha entre duas tendências opostas, posição incômoda adotada em benefício do espectador. Afinal, uma das recompensas de quem vê um documentário é a descoberta de um personagem em sua complexidade.

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