Filme é discutível, mas Meryl dá show de interpretação

O problema quando se representa uma figura da História no cinema é a construção de um personagem interessante. Isso é verdade. Mas, além disso, é preciso fazer um esforço para que a imagem construída tenha correspondência com os fatos historicamente reconhecíveis. Quem não topar essa comparação com a vida real fará melhor em trabalhar na pura ficção. Invente um personagem e faça dele o que bem entender.

Crítica: Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2012 | 03h09

Margareth Thatcher, queira-se ou não, foi um dos líderes políticos mais influentes do século passado, cujas decisões são, em boa parte, responsáveis pelo mundo que temos hoje em dia. Não se pode ignorar esse fato. Nem as divisões que a figura de Thatcher inspira, conforme o interlocutor se encontre à direita ou à esquerda no espectro político. Já tentaram sepultar essas categorias, mas pergunte sobre Thatcher a um proprietário conservador ou a um sindicalista e a diferença das respostas se encarregará de mostrar quão vivas elas continuam.

De modo que, sabendo que sua personagem é, para dizer o mínimo, controversa, a diretora Phyllida Lloyd teria dificuldade para produzir uma simples hagiografia, sob pena de cair no descrédito. Precisa então matizar cores, mas, como é francamente simpática à personagem, toma algumas medidas de segurança.

A primeira delas, sem dúvida, é escalar uma craque como Meryl Streep para vivê-la, o que garante, de antemão, a simpatia da parte do público, se não com a personagem, pelo menos com a atriz.

A segunda providência é retratar a personagem, já doente e em idade avançada, recordando sua juventude e o longo tempo em que se manteve no poder.

A terceira é fazer da trajetória de Thatcher uma história de êxito, irresistível para o público anglo-saxão, mas também atraente para os demais públicos, num mundo cada vez mais uniforme em termos de pensamento (ou da ausência dele, ao menos em sua forma crítica).

Claro que Meryl Streep é mesmo o grande trunfo do filme. Sua interpretação é antológica, independentemente do fato de que venha ou não a ganhar o Oscar. Meryl mimetiza o porte, o modo de andar, o jeito de falar, o sotaque, a pose autoritária. Já foi dada como imbatível na premiação da Academia, mas a cotação de Viola Davis por seu comovente papel em Histórias Cruzadas, subiu muito na bolsa de apostas. Pouco importa o que aconteça; é uma grande atriz.

Já o fato de mostrar Thatcher em idade avançada, viúva e sofrendo as consequências do mal de Alzheimer é uma medida astuta. Desperta a compaixão com a velhice e a doença, contingências de todo humano, poderoso ou não. Além disso, as falhas de memória permitem que Maggie reinterprete o passado ao bel prazer.

Já a questão do êxito pessoal é bem reforçada pelo fato de Thatcher ter sido a primeira mulher a ocupar tal cargo no Ocidente. Além do mais, teve origem humilde, dado fundamental na mitologia liberal da igualdade de todos na competição pela vida. Aliás, ela foi educada nas virtudes da livre iniciativa pelo próprio pai, um pequeno comerciante, e sempre o teve como modelo - é o que o filme afirma.

Com tais medidas de segurança, Phyllida pode passear tranquilamente sobre temas ásperos como a luta renhida no Parlamento, o confronto com os sindicatos e com o IRA, a Guerra das Malvinas, sem que nada comprometa a empatia do público mais despolitizado com a sua personagem. E, claro, há Meryl Streep, o que desculpa muita coisa.

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