Filme Duro, Adulto e Muito Bom

Abutres, do argentino Pablo Trapero, abre a Mostra de Direitos Humanos

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2010 | 00h00

"Carancho" é uma ave que se alimenta dos restos de outros animais. Sinônimo de carcará, aquele bicho que, conforme a canção de João do Vale, "pega, mata e come". O título do filme de Pablo Trapero ficou sendo Abutres, no plural. Não está mal, porque se refere àquele tipo de gente que se alimenta da perda humana, os profissionais das indenizações de acidentes de trânsito. Gente que vive rondando hospitais e velórios. O carancho é quem entra em contato com as famílias, batalha indenizações, dá uma porcentagem às vítimas e guarda no bolso a parte do leão. Como não age só, o plural justifica-se. Abutres, de Pablo Trapero, é um filme estupendo e abre hoje a Mostra de Direitos Humanos (leia mais abaixo).

O "abutre" trabalha em grupo. Faz parte de um esquema de advogados, com conexões com a polícia. Um deles, o mais voraz e capacitado para sua atividade predatória, é Sosa (Ricardo Darín). Ele tem o instinto do sangue - sabe como se aproximar das famílias e fazer com que assinem a procuração que lhe dá poderes para representá-las diante das companhias de seguro. Sosa é um advogado que perdeu sua licença por algum motivo. Sobrevive desse modo. Tem lábia, mas não escapa de tomar umas pancadas de familiares mais sensíveis, e é assim que o filme começa.

Seus problemas não terminam aí. Só começam, na verdade, quando ele conhece uma médica de pronto-socorro, Luján (Martina Gusman, mulher de Trapero), que também não deixa de ter seus sérios conflitos internos. O filme se desdobra nesses dois planos - por um lado, as atividades de Sosa, em confronto com o grupo do qual faz parte; por outro, o relacionamento nascente entre ele e a médica, ligação que sofre as consequências do tipo de atividade que desenvolvem, porém se situando, cada qual, de um lado diferente do balcão.

O que interessa mesmo ao espectador está tanto nos temas tratados como na fluência com que Trapero os desenvolve. Há um começo de grande impacto, em que os diálogos são mínimos e o diretor confia de maneira total na força das imagens. Todo um desenho do que virá se transmite naquelas primeiras cenas. Em preto e branco, fotos paradas de acidentes na apresentação dos créditos e, depois, em cores, um homem sendo espancando durante um velório. A partir daí, o clima sobe lá em cima, e não cai. Quando entram os diálogos, eles são inspirados, naturais, sem impostação; podemos não ser familiares ao modo de falar portenho, mas são diálogos que nos parecem naturais. Claro que ajuda muito o fato de o ator principal ser Darín, capaz de fazer soar de modo coloquial um manual de jurisprudência.

A história é contada de um ponto de vista instável, porque apoiado na areia movediça da ambivalência dos personagens. Sosa faz um trabalho repulsivo, e nem por isso deixamos de simpatizar com ele. Luján é uma gracinha, mas, como o espectador vai descobrir, também tem lá suas zonas cinzentas, suas áreas de luz e sombras, como todo ser humano normal jogado numa situação de estresse permanente. São personagens críveis, gente como a gente, com suas grandezas e baixezas. Gente que faz, mas também gente que falha. Seres humanos, e não heróis. Quer dizer, Abutres é cinema para adultos, não uma dessas fantasias piedosas que Hollywood costuma despejar nas telas, e que mistificam a condição humana em vez de iluminá-la. É esse o trabalho contínuo que Pablo Trapero vem realizando, em filmes como Mundo Grua, Família Rodante, Do Outro Lado da Lei e Leonera. É autor que merece atenção. Tem o que dizer ao mundo. E sabe como dizê-lo.

MOSTRA DE DIREITOS HUMANOS

Cinemateca. Lgo. Sen. Raul Cardoso, 207, 3512-6111. Grátis.

Cinesesc. R. Augusta, 2.075,

3087-0500. Grátis.

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