Hermila Guedes em 'Era uma Vez Eu, Verônica', de M
Hermila Guedes em 'Era uma Vez Eu, Verônica', de M

Filme de Marcelo Gomes traz a atriz Hermila Guedes em estado de graça

'Era uma Vez Eu, Verônica' entusiasma o público e surge como um dos 'premiáveis' mais fortes da seleção do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

LUIZ ZANIN ORICCHIO - O Estado de S.Paulo,

24 de setembro de 2012 | 03h09

BRASÍLIA - Num festival de bom nível, que termina hoje à noite com a entrega dos troféus Candangos, talvez seja temerário apontar favoritos. Mesmo porque, até o horário de fechamento desta edição, ainda faltavam alguns competidores a serem exibidos: três curtas e os longas Elena, de Petra Costa (documentário), e Este Amor Que nos Consome (ficção), de Allan Ribeiro. Mesmo assim, pode-se dizer que Era uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes (PE) entusiasmou o público a tal ponto que surge como um dos "premiáveis" mais fortes da seleção. Entre seus trunfos, Hermila Guedes, em estado de graça e entrega total à personagem, é tida como vencedora inquestionável do prêmio de atriz. Será injustiça se o júri não reconhecer o seu impressionante trabalho.

Ela vive a personagem do título, Verônica, médica recém-formada, com pai idoso e doente (W.J. Solha, também em atuação marcante) e namorado ocasional (João Miguel). Começando carreira no atendimento psiquiátrico em um hospital público no Recife, ela é um poço de dúvidas. Mas também de sensualidade, afeto e compreensão humana.

"Para construir essa personagem, entrevistei uma série de mulheres jovens para sentir o que as preocupava, como viam o mundo e a si mesmas", conta o diretor. "Talvez todo esse material, que foi filmado, renda no futuro um documentário, se elas derem autorização para uso de imagem." Enquanto isso não acontece, essa imersão no imaginário feminino rendeu a Marcelo a construção de uma personagem de ficção extremamente convincente, com toda a ambivalência que é própria do ser humano, ainda mais na juventude, ainda em fase de definição de rumos.

Impossível não se apaixonar por Verônica. Ela sente todo o mal-estar de quem não sabe ainda por onde seguir, mas tem também todo o gosto pela vida. Gosto que se exprime na sexualidade que usa com muita liberdade. "Ela é uma mulher do presente, que se aproveita da nossa época mais liberal para o gênero feminino", diz o diretor, que encontrou em Hermila uma atriz sem qualquer hesitação nas cenas, digamos, calientes. Ao mesmo tempo, ela é uma intérprete que pode mudar o rumo da história, com matizes de um rosto capaz de exprimir prazer e angústia, às vezes numa única tomada.

O filme, em sua simplicidade naturalista ("o naturalismo é a minha opção de cinema", avisa Marcelo Gomes), é daquelas obras que têm camadas de interpretação. À primeira vista, é apenas a história de uma garota em busca do seu eixo. Visto mais de perto, traz também as contradições contemporâneas. A nossa vida é cheia de angústias, por um desempenho que parece fora de alcance e pela incompreensão dos outros; ao mesmo tempo, dispomos de liberdade individual que as outras gerações não conheceram.

A própria cidade é retratada em suas ambiguidades. Recife está sendo destruída pela voracidade da especulação imobiliária. Mas continua sendo a fascinante cidade do carnaval e do frevo, das praias lindas e da sensualidade à flor da pele. A vida é composta por esses contrários, não por um lado só. Nesse sentido, Era uma Vez Eu, Verônica, parece mais complexo que outros ótimos filmes pernambucanos, mas que tocam quase exclusivamente a tecla da depressão.

Entre os documentários, Otto, de Cao Guimarães, continua na frente, embora Doméstica, de Gabriel Mascaro, tenha causado excelente impressão. O dispositivo é interessante: ele pede a sete adolescentes que registrem imagens e depoimentos das empregadas domésticas de suas casas. Com o material bruto, produz um filme bastante interessante sobre as ambíguas relações das famílias com suas empregadas.

A estratégia deu resultado. Com os jovens filmando suas empregadas foi possível captar uma relação de afeto entre elas e as famílias que, de outra forma, ficaria oculta. Mas Mascaro não se engana: "Esse afeto apenas disfarça e oculta a realidade de relações trabalhistas muito injustas nessa situação."

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