Filme de Giorgetti retrata a ditadura a partir do teatro

Há uma qualidade no cinema de Ugo Giorgetti - seus filmes são muito bem escritos. "A gente tenta, né?", diz o diretor de "Cara ou Coroa", que estreia nesta sexta-feira, numa entrevista realizada terça à noite, no Espaço Itaú de Cinema. O conjunto de salas da Rua Augusta estava sendo reinaugurado, havia a barulheira dos convidados lá fora, mas, na sala 1 deserta, Giorgetti falou sobre o novo filme. "Esta é uma lição que vem de (Pier Paolo) Pasolini. Ele dizia que o roteiro é uma peça isolada, uma intenção de filme. Como não é o próprio filme, sua qualidade é isolada e depende do valor literário."

AE, Agência Estado

06 de setembro de 2012 | 10h21

Mas Giorgetti tem outra justificativa para seus diálogos muito bem escritos - "A gente escreve bem para tentar seduzir os atores." Os de "Cara ou Coroa" compõem uma constelação multimídia. Walmor Chagas, Emílio de Mello, Otávio Augusto. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo no domingo, Walmor disse que topou fazer "Cara ou Coroa" por causa do personagem. O filme usa uma companhia de teatro para traçar um retrato do Brasil sob a ditadura militar. Walmor faz o general em cuja casa a neta e o namorado dela, um jovem dramaturgo, escondem dois militantes, dois ''subversivos''. Há uma sugestão final de que o general, personagem ambíguo, talvez soubesse de tudo.

Todo ator é um exibicionista, e Walmor é o primeiro a admitir isso, mas ele não tem muita certeza de haver conseguido passar na tela a ambivalência do general. O próprio Walmor diz que Otávio Augusto é o destaque do elenco. "Conheço o Otávio há muito tempo e sempre reservo um papel para ele. Otávio não é problema, é solução. Chama o Otávio que ele faz bem qualquer papel", acrescenta o diretor. "Cara ou Coroa" usa uma companhia - e a prisão de integrantes do mítico Living Theatre - como peças condutoras de seu relato, mas não é sobre teatro, por mais que Giorgetti se considere, cada vez mais, cativado por essa mídia. "Ainda vou trocar o cinema", ele brinca.

O filme busca traçar um retrato da época, esse ano de 1971, de tanta repressão, quando o regime militar capitalizou a vitória da seleção na Copa do Mundo (do México) para criar uma campanha nacionalista de legitimação - "Brasil, ame-o ou deixe-o". Foram anos de chumbo, duros, mas nada como a lembrança para redimensionar os fatos. Há um narrador, no começo e no fim, e ele fala com a voz de Paulo Betti. "Lembra que, apesar de tudo, ''estávamos vivos e éramos felizes''", Giorgetti arremata. "Éramos jovens." E isso diz tudo.

Giorgetti já tratou de alguns desses assuntos em "O Príncipe", que não era tão bom. Hoje, ele consegue colocar as coisas em perspectiva. "O Príncipe é mais amargo. Cara ou Coroa deveria ter vindo antes, com seu entusiasmo mais juvenil." Os jovens do filme, Geraldo Rodrigues e Júlia Ianina, foram escolhidos com muita pesquisa, indo ao teatro para garimpar novos atores. A história propriamente dita nasceu um pouco torta. Giorgetti acha que o cinema brasileiro já deu testemunhos importantes sobre a resistência à ditadura militar e a máquina de repressão que ela montou no País. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

CARA OU COROA

Direção: Ugo Giorgetti. Gênero: Drama (Brasil/ 2012, 110 min.). Classificação: 12 anos.

Tudo o que sabemos sobre:
cinemaCara ou Coroa

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.