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Filme de Autor? Não, de atores

Comédia romântica de Edward Zwick perturba com seu final feliz que deixa um travo amargo

Luiz Carlos Merten

28 de janeiro de 2011 | 06h00

Edward Zwick especializou-se nos últimos anos em filmes grandes, não necessariamente grandes filmes - O Último Samurai, Diamante de Sangue, etc. É uma tendência que vem, em sua carreira, desde Tempo de Glória, que deu o Oscar de coadjuvante para Denzel Washington, sobre a Guerra Civil americana. Samurai tem ótimas cenas de batalha, inspiradas em Akira Kurosawa, Leonardo DiCaprio e Djimon Hounsou são soberanos e brilham mais que o próprio Diamante.

O novo longa de Zwick reata com o primeiro que ele fez. Lembram-se de Sobre Ontem à Noite? Tem tudo a ver com Amor e Outras Drogas, que estreia hoje. O filme parece que não fez o sucesso esperado nos EUA. Azar do público de lá. Foi considerado triste. Uma comédia romântica sem final feliz, ou com um final feliz que não livra o espectador do travo amargo que lhe fica na boca. Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway são belos, sexys e talentosos. Você sabe - já os viu em O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee. Lá, a relação também era complicada, porque o personagem dele ia para o armário, tentava reprimir o homossexualismo. Não se interessava pela mulher nem por suas necessidades.

Aqui, ele é a ovelha negra da família. Não sabe direito o que quer (como carreira), mas, talvez para se compensar de Brokeback Mountain, é muito bom com as mulheres. Termina descobrindo sua vocação - como vendedor - ao se tornar representante do laboratório que produz o Viagra. O filme reconstitui o surgimento da pílula do sexo. O roteiro foi adaptado do livro Hard Sell - The Evolution of a Viagra Salesman, de Jamie Reidy. Embora o personagem não necessite de Viagra, Gyllenhaal entende a necessidade dos que precisam. Ele sobe na vida. Liga-se a Anne e ela parece uma predadora sexual. Essa urgência tem uma explicação: sua personagem sofre de Parkinson, sabe que não terá muito tempo. O filme narra o aprendizado desses dois.

Não será difícil para quem quiser encontrar os defeitos do filme. Eles são sempre meio transparentes no cinema de Zwick. Mas é um cinema prazeroso como espetáculo e essa qualidade, pois é uma qualidade, passa pelo elenco. Fez bem, para Gyllenhaal, passar pela fantasia de O Príncipe da Pérsia. Ela lhe deu uma consciência maior do próprio corpo. O personagem agora é desinibido, sexualmente. Tem aquele sorriso cativante. E o tempo todo vive o dilema de sentir que está-se apaixonando por uma mulher que lhe adverte que, do amor, só espera o provisório. Anne é a chave do filme. Seu reencontro com o (ex?) amado no fim ultrapassa o que poderia haver de superficial na trama (e na própria realização). Um filme de autor? Não, de atores.

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