Filme comprova que ninguém é profeta em seu próprio país

JJJJ ÓTIMO

Crítica: Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2010 | 00h00

Se fôssemos levar ao pé da letra algumas críticas recebidas por O Profeta em seu país, nos sentiríamos até meio constrangidos de gostar do filme de Jacques Audiard. Bem, pelo menos algumas críticas, já que outros amaram o filme e ficaram decepcionados quando ele recebeu apenas o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes de 2009. Queriam para ele a Palma de Ouro. A mais influente das revistas de cinema, os Cahiers du Cinéma, foi enfática na condenação. Dedicou-lhe quatro páginas de cerrada análise técnica e ética, e ainda uma menção no editorial do seu número de setembro de 2009.

O cuidado com que foi analisado leva a crer que O Profeta tenha provocado na França reação semelhante à causada no Brasil por Cidade de Deus. Como se lembra, o filme de Fernando Meirelles dividiu a crítica brasileira, foi exibido fora de concurso em Cannes e, dada sua repercussão, ganhou fama mundial.

Como Cidade de Deus, O Profeta é um filme do qual se pode dizer quase tudo ? menos que deixa as pessoas indiferentes. Esbanja fluência narrativa, boas interpretações, cenas de impacto. Tem clima e uma excelente história. Seduz o espectador, o que leva a crer que também possui um subtexto poderoso. Mas há a questão da forma: uma das principais acusações que lhe faz os Cahiers é de ser expressão do desejo de Audiard de fazer "cinema americano". O engraçado é que, também aqui, o paralelo com Cidade de Deus pode ser feito. Não por acaso, um dos artigos elogiosos ao filme de Meirelles dizia que, por fim, o cinema brasileiro havia encontrado seu caminho ? ao fazer filmes que não fariam feio em Hollywood. Um primor de provincianismo.

Mas a questão, claro, não é essa. Há bons e maus filmes, europeus, americanos ou iranianos. E O Profeta, até por seu grau de sedução, parece tocar em pontos sensíveis do público. Mostra a ascensão de um pequeno marginal, Malik (Tahar Rahim) à condição de grande contraventor. No percurso, ele tem um mentor (Niels Arestrup), a quem obedece e depois destrona. Há um entrelaçamento familiar com a vida do crime ? com a família mafiosa, e depois com a família propriamente dita, na figura do companheiro que lhe deixa a missão de cuidar da viúva e do filho. Algo aí ecoa, vaza, do ambiente ítalo-americano de O Poderoso Chefão à realidade franco-árabe de O Profeta. São ressonâncias, não plágio ou imitação. Na intensidade dos gestos, no parricídio simbólico, na dialética entre violência e amizade, e mesmo em certo apelo místico, se jogam as apostas deste filme ambicioso de Audiard. Que ganha todas elas, com exceção da unanimidade crítica. Essa ninguém tem.

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