Filme adota ponto de vista do absurdo em tom de reportagem

A guerra por dentro, a seco e sem comentários. É a proposta de Restrepo, documentário construído através dos olhares do repórter Sebastian Junger e do fotógrafo Tim Hetherington, ambos embutidos num pelotão norte-americano no Afeganistão. Não em um lugar qualquer, mas no Vale Korangal, reduto talibã, tido como um dos postos mais perigosos do país.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2011 | 00h00

O filme adota o tom de reportagem a partir das primeiras imagens, com a chegada dos soldados. Mantém uma estilo informal de filmar, como se estivesse registrando a chegada de um grupo de jovens a uma colônia de férias. Uns brincam com os outros e mexem com um companheiro que está dormindo. Numa das imagens, surge um personagem que dará nome ao filme, Juan "doc" Restrepo, paramédico de origem colombiana, naturalizado norte-americano, e que será morto logo na chegada ao destino.

Assim, o posto avançado terá seu nome. E, claro, a ideia da morte, sempre presente em operações militares, mesmo que reprimida, estará, nesta em particular, inscrita a partir do nome.

O filme se compõe de cenas de ação - escaramuças intermitentes com um inimigo do qual não se vê o rosto - e cenas domésticas do acampamento. Como a dizer que assim é a guerra: um trabalho de espera, um jogo com o tempo (morto, sim), que deve afetar certa normalidade, até ser interrompido, quando menos se espera, pela chamada à ação. Durante a espera, sente-se a presença de estratégias para combater o medo e a ansiedade. Fala-se muito em Restrepo, com os soldados confessando seus anseios e inquietações. Mas é, acima de tudo, documentário de observação de um cotidiano nada convencional.

Não há retórica. A falta de sentido da guerra aparece, não nas palavras, mas filtrada por um cotidiano de violência banal. Nela, não há política, pelo menos na superfície. Não é discutida a presença desses jovens norte-americanos num país que desconhecem. Restrepo é apenas um ponto de vista. O ponto de vista do absurdo.

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