Filme ´500 Almas´ evoca a história dos índios guatós

Filme de Joel Pizzini reconstrói a cultura de uma tribo dada como desaparecida

Agencia Estado

07 de julho de 2002 | 10h06

A peça Controvérsia em Valladolid,de Jean Claude Carrière, evoca uma interessante (e comovente)passagem histórica: a defesa, por parte do religioso Bartoloméde las Casas, dos indígenas que surgiram ao mundo "civilizado"como o grande enigma da descoberta da América. Aqueles seresestranhos,tão parecidos aos europeus e ao mesmo tempo tãodiferentes, teriam uma "alma"? Em outras palavras, seriam como"nós"? Essa discussão ocupa uma pequena, mas significativa partedo belo documentário de Joel Pizzini, 500 Almas, sobre osíndios guatós. Há uma particularidade sobre os guatós. Essa tribo da regiãomato-grossense era considerada extinta até ser"redescoberta" pela missionária italiana Ada Gambarotto. Naverdade, os guatós estavam lá, dispersos, misturados à culturacabocla, quase invisíveis nesse processo de aculturação. O filmese propõe assim a uma função quase arqueológica, a dereconstruir uma cultura já quase perdida, uma língua já quaseaniquilada, mas que subsiste na memória de um, nos lapsos deoutro. É um trabalho humanístico, de reconstrução a partir defragmentos. E que se exprime na estrutura mesma do filme. Pizzini lembra quea arte dos trançados de bambu ocupa posição importante nacultura guató. Pensou, junto com sua montadora Idê Lacreta, numa"montagem em trançado", em que várias linhas de sentido seentrelaçam, até propor, no final, um significado possível para ofilme. Que, no entanto, também vai depender de como o espectadoro "lê" ou "decodifica", já que esse desenho estará sempreincompleto, pedindo a participação de quem o vê, ou com ele seEmociona. ÁguaAssim, há a linha que ouve os índios mas também os observa emtarefas como escamar um peixe ou esculpir uma canoa a partir deum tronco de árvore. Há as entrevistas com a missionária, com opoeta Manoel de Barros, que fala da linguagem guató, mescladas aencenações (com Paulo José interpretando vários papéis). E háuma inusitada ponte construída entre o Pantanal e a Europa,ligando a cultura guató à alemã. Ambas, em sua mitologia, têm a água como elemento fundamental.Daí se justificam as imagens de Siegfried, de Fritz Lang,relembrando o mito germânico do guerreiro que vai fechar o corpobanhando-se numa cachoeira e não percebe que uma folha caiusobre suas costas. A parte não molhada torna-se o seu pontovulnerável. Essa ligação transetnológica é feita com graça e naturalidade.Pertencemos todos a uma grande família simbólica, emboraseparados por um oceano de água e de possíveis diferenças,inclusive econômicas. É uma forma nada piegas (porque política)de dizer que todos os membros dessa família, mesmo os maisfracos, têm direito à existência. 500 Almas (Brasil/2006, 109 min.) - Documentário. Dir.Joel Pizzini. Livre. Espaço Unibanco 3 - 14 h, 16 h, 19h20,21h30. Cotação: Bom

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