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Filhotes

As meninas do passado e a menina do futuro, todas juntas no presente

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

11 Março 2018 | 03h00

Era assim: o fim de semana era na casa de uma ou de outra. Quando era na dela, o Tio Silvio preparava minha cama no chão, ao lado do beliche, empilhando edredons até que ficasse fofinho. A Tia Marisete chegava sorridente do vôlei e frequentemente jantávamos pizza. Quando era na minha, fazíamos panelas de brigadeiro e pedíamos 5 reais para o meu pai para alugarmos DVDs do lado de casa. Quando a Amanda vinha, minha mãe comprava o iogurte que sabia que ela gostava.

Bagunçávamos os quartos, conversávamos até as 3 da manhã como prova de que já nos considerávamos muito adultas aos 12 anos, dormíamos até o meio-dia naquelas camas improvisadas tão familiares. Os sábados e domingos não tinham uma programação atribulada, contando apenas com um aniversário ou outro, que nossos pais rezavam para não ser muito longe, nem até muito tarde.

O vento soprou e 18 anos se passaram. Nossas casas não são as mesmas, nem no endereço, nem no conteúdo. Mudaram os horários, as cores das roupas, as programações e as disponibilidades. Só uma coisa não mudou: a gente. Às vezes, nossos pais até dizem o contrário, que mudamos, que não temos tempo pra nada, que estamos estressadas e excessivamente mergulhadas em trabalho, mas sei que quando eles nos olham, sobretudo juntas, percebem que as meninas do brigadeiro e dos DVDs são exatamente as mesmas, sem tirar nem por.

Na semana passada, largamos nossos queridos maridos em nossas casas, uma em Lisboa, outra no Butantã, e nos encontramos numa eterna ilha segura, que nos leva de novo para o passado: a casa dos meus pais. É como se dentro daquele apartamento pudéssemos ser de novo as meninas de 12 anos, sem complicações, sem prazos e sem angústias justificadas.

Mas, dessa vez, a Amanda comeu mais do que de costume. Minha mãe ofereceu bolo salgado e ela quis. Suco de pêssego e ela quis. Torradinhas também. E uns docinhos. Dessa vez, foi diferente. Naquela tarde, eu e a Amanda já éramos três. As duas meninas do passado e a menina do futuro, na barriga dela. Minha mãe queria alimentar não só a minha melhor amiga, mas também aquela pequena grande amiga que vem crescendo nos últimos meses. As meninas do passado e a menina do futuro, todas juntas no presente.

Enquanto comíamos, dávamos risada e nos lembrávamos das velhas histórias que nos construíram, o interfone tocou. Era uma entrega para mim. Descemos juntas naquele fim de tarde quente e úmido de verão para pegar o pacote na portaria. Quando abri, quase caí para trás. Era meu livro. O livro que eu escrevi, que há tantos meses eu ansiava por poder segurar nas mãos e que, supostamente, só chegaria dali uns dois dias.

Mas não. Meu livrinho amarelo, meu filhote, chegou bem quando a Amanda estava lá em casa. Ela com filhote na barriga, eu com filhote nas mãos. Deu vontade de chorar. Subimos de volta e meus pais ficaram na sala conosco, emocionados com meu livro, emocionados com aquela Amanda barriguda que até ontem ainda era criança. E que, suspeito eu, continue sendo criança até hoje para eles.

Era realmente um bom encontro. Um passado saudoso que desembocou num presente que faz tanto sentido. Naquela tarde, éramos filhas maduras e éramos projetos de mães. Meus pais estavam orgulhosos da gente. Tio Silvio e Tia Marisete também estão. Eu olho para ela e penso “ela está fazendo seu caminho direitinho”. Ela olha para mim e pensa exatamente o mesmo. A vida é muito legal, né?

(Aproveito a ocasião para convidar todas essas pessoas queridas que dedicam valiosos minutos dos seus domingos para ler essa coluna a receberem meu abraço de agradecimento no lançamento do meu livro, Um Dia Ainda Vamos Rir De Tudo Isso, dia 13/3, terça-feira, às 19 horas na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, vou ficar muito feliz se puderem ir).

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