Filhos de Mama África

Filhos de Mama África

Se a África do Sul fosse apenas uma voz, ela seria a de Miriam Makeba. A Mama África, como ficou conhecida, sofreu as consequências por ter esbravejado contra a separação entre brancos e negros em seu país. Ela primeiro teve seu passaporte africano anulado. Depois, viu seus discos serem banidos das lojas e seu direito de regressar à África do Sul impossibilitado nos anos 60. Miriam só voltaria ao país em 1990, atendendo a um pedido de Nelson Mandela. Em 2008, ela estava em um palco de Castel Volturno, na Itália, quando sofreu um ataque cardíaco ao qual não resistiu.

Antonio Duarte, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2010 | 00h00

Mama África teve tempo de ver que não brigou por acaso. Sua volta acendeu ideias em artistas que, ainda hoje, criam a cena da região. O kwaito, a música das massas que surgiu no mesmo emblemático ano de 1990, não é exatamente o mesmo de sua origem, mas resiste na fórmula contestadora em vozes como a de Mandoza. Com um visual que lembra os rappers americanos, ele faz sucesso como um dos principais artistas da EMI naquele país. "A indústria fonográfica nunca deu atenção à música de protesto. Como era algo que não daria muito dinheiro, era preferível que nem fosse gravada", diz o cineasta e ex-dono da gravadora Shifty Records, Lloyd Ross.

Africâner. Ross tem história que não acaba mais. "No fim dos anos 1980, nós organizamos uma turnê que mudou a maneira como se encarava a música cantada em africâner (o idioma dos negros). Pela primeira vez, jovens marginalizados levantaram-se e cantaram músicas de protesto no idioma de quem os oprimia", lembra o homem que, em plena segregação, comandou um selo alternativo que, como diz, "não distinguia os músicos por sua cor, mas pela qualidade artística". Ross rodou o país com um sistema de gravação adaptado em um carro para registrar tudo o que via e ouvia de interessante naquele país. "No começo, me interessei por punk e new wave. Queria saber apenas de música que falava das questões pelas quais o país passava. Depois me dei conta de que outras pessoas estavam tentando dizer o mesmo com ritmos diferentes, e segui meus instintos. Eu estava apenas buscando a essência real da música sul-africana." Michael Nixon, professor de etnomusicologia da Universidade de Cape Town, fala da virada que começa a se configurar. "Nossos jovens assistem a vídeos no YouTube, acessam o My Space. E estão mudando o cenário musical muito rapidamente."

Vocação. Um dos grupos mais promissores da cena sul-africana atual é o Die Antwoord ("A Resposta", em africâner). Seu sucesso pode ser explicado pela vocação multimídia. O clipe de sua música Enter the Ninja foi assistido mais de 2,7 milhões de vezes em dois meses. Seu mais recente CD, $O$, não foi lançado pela subsidiária local da Sony, mas já está disponível de graça no site da banda, via streaming. Foi preciso hospedar a página da banda em um servidor norte-americano para suportar o tráfego de internautas, já que a África do Sul não dispunha de nada capaz de aguentar a demanda.

Em uma comparação com o Brasil, o Die Antwoord seria uma espécie de Bonde do Rolê sul-africano: músicos com visual moderno, que abusam de batidas eletrônicas misturadas a ritmos locais e fazem sucesso fora do país. Em vez do funk carioca, o hip hop é a principal influência da banda. O resultado é um som agressivo, com um pouco de experimentalismo, mas de fácil aceitação internacional. Algo que poderia até assustar Mama África, mas que provavelmente nem ela negaria: é a cara da atual África do Sul.

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