Filhos da revolução

Em A Viúva Grávida, Martin Amis relembra as promessas e as frustrações provocadas pela transformação sexual que marcou os anos 70

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2011 | 00h00

Em 2000, o escritor britânico Martin Amis perdeu sua irmã caçula, Sally. Ela estava com 46 anos e era uma alcoólatra crônica. "E patologicamente promíscua", acrescenta o autor, que a via como uma vítima da revolução sexual que modificou profundamente os costumes nos anos 1960 e 70. Sally inspirou Violet, uma das personagens mais conturbadas de A Viúva Grávida (tradução de Rubens Figueiredo), romance de forte cunho autobiográfico lançado recentemente pela Companhia das Letras.

No livro, Violet é irmã de Keith, jovem estudante que, no verão de 1970, passa férias com um grupo de amigos em um castelo italiano onde a ociosidade alimenta fantasias eróticas. A derrubada de tabus provocada pela revolução sexual desperta uma inigualável sensação de liberdade, ainda que as atitudes, até então presas à regras de condutas, sejam claudicantes. "Trata-se de uma história real ocorrida em uma época dourada, de grande convulsão social", disse Amis ao Estado, em entrevista por telefone. "E, à medida que se envelhece, cresce o interesse em recuperar historicamente esse período."

Amis conta que planejava um relato autobiográfico, mas com estrutura ficcional. Quando tinha escrito cerca de cem páginas, em 2003, descobriu-se em uma encruzilhada: "Eram perfeitas como romance, mas não contavam a minha história". Já fazia quatro anos que o escritor buscava sem sucesso dar um tom mais pessoal à sua narrativa e o caminho surgiu quando decidiu incluir a Itália como cenário - aí a trama deslanchou.

Crítico, o autor decidiu apresentar a sua revisão da época ao fazer com que a narrativa se prolongue até 2006, quando Keith, depois de três casamentos e quatro filhos, continua assombrado pelos acontecimentos daquele hedonista verão italiano. "A fase igualitária, desbundante, em que homens e mulheres agiam da mesma forma, não durou muito, especialmente para elas", observa. "E isso é completamente compreensível - afinal, qual era a fonte de inspiração de aventura para as mulheres? O masculino, que obviamente não era suficiente. Assim, elas foram obrigadas a fazer o trabalho duro, a se adaptar, a se desfazer de séculos de ensinamento de submissão." E, antes de ser apedrejado por feministas, enfurecidas com sua visão masculinizadora das mulheres, Amis faz questão de se assumir feminista de carteirinha, "desde os anos 1980".

O preço, como se sabe, foi muitas vezes caro demais. Violet, reflexo de Sally, é uma mulher esperançosa ao mesmo tempo em que se envolve com relações violentas, sempre regadas a álcool. Na vida real, a mãe de Amis decidiu ignorar a situação da filha, como se eliminasse o problema dessa forma. Para escrever A Viúva Grávida, no entanto, o autor precisou colocar o dedo na ferida. "Minha irmã viveu em um momento da sociedade que lhe ofereceu o ambiente perfeito para desfrutar, a seu modo, a revolução sexual."

Amis escolheu o título a partir de uma metáfora do escritor e ativista russo Aleksandr Herzen (1812-1870), segundo o qual as mudanças sociais não são rápidas, pois o mundo que se vai deixar atrás de si não um herdeiro, mas uma viúva grávida. "Entre a morte de um e o nascimento de outro, uma longa noite de caos e desolação vai passar", vaticinou.

"Acredito que as mulheres precisarão de pelo menos um século até consolidar sua ascensão", comenta Amis. "E, quando acontecer, será global. Só espero que isso ocorra antes que a vida no planeta se resuma à questão de sobrevivência, do qual estamos ameaçados com tantas crises climáticas."

Amis não se reconhece como um escritor político - o teor da história é que condiciona o tom. Por conta disso, não se dispôs a provocar polêmicas com seu livro: apenas satisfazer o desejo próprio de relembrar a vida e, quando possível, ajustar pendências dolorosas.

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