Márcio Fernandes/AE
Márcio Fernandes/AE

Filho de Kazuo Ohno vem a São Paulo para ensinar a arte do butô

Yoshito Ohno apresenta 'Wind of Time' com o objetivo de levar a dança adiante

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2013 | 02h13

Esse homem que, não sei bem por que, eu esperava sisudo e grave me sorriu por mais de uma hora. Durante a conversa, Yoshito Ohno falou de essência, das coisas que são imutáveis em cada um de nós, de vida e de morte. Mas dizia isso como se contasse as coisas mais ternas, mais doces.

O filho de Kazuo Ohno está todo vestido de negro. É forte e altivo, como costumam ser os bailarinos. Só que sem a ansiedade, a vertigem que os artistas, quase invariavelmente, exibem na voz e no corpo.

Está no Brasil para apresentar Wind of Time, espetáculo que resume um pouco sua incumbência desde a morte do pai, em 2010: levar o butô adiante, fazê-lo sobreviver. Antes da criação ser exibida amanhã no Sesc Consolação, fará um workshop com artistas locais. E pretende subir ao palco ao lado desses intérpretes. "Passei muitos anos trabalhando com Kazuo, sem tempo de assistir a outras coisas. Só recentemente passei a acompanhar o trabalho dos mais jovens e percebi que algo se perdeu. O butô surgiu como uma arte multidisciplinar, que bebia em outras linguagens. É meu dever transmitir essas ideias para as próximas gerações."

Sem dúvida, o sobrenome credencia Yoshito a se atribuir essa "missão". Sua história com o butô, porém, ultrapassa os laços de família. Ele não foi apenas testemunha do nascimento dessa nova maneira de dançar. Mas também protagonista. Aos 21 anos, participou daquele que é considerado o primeiro espetáculo do gênero na história: Kinjiki (que pode ser traduzido como Cores Esquecidas).

A obra estreou em 1959. Era dirigida por Tatsumi Hijikata, nome referencial da dança no Japão, e causou espanto naqueles que a viram. Tocava em questões interditas, como a pedofilia e a homossexualidade. Trazia Yoshito, no escuro, com uma galinha viva presa entre suas pernas. "Na época, não entendia ao certo do que se tratava. Me lembro de ter perguntado a Hijikata do que, afinal, a peça falava. Levou um tempo até que aquilo fizesse sentido para mim."

Ainda sob a condução de Hijikata, contracenou com Kazuo Ohno em criações marcantes, como Minha Mãe e Mar Morto. E, mais adiante, passaria a dirigir as performances do pai. Hoje, aos 74 anos, conduz um estúdio de dança e dedica parte considerável de seu tempo a ensinar.

O butô não é propriamente uma técnica. Ambiciona, em princípio, tornar o corpo do bailarino livre para expressar a si mesmo. Libertá-lo de determinadas maneiras de pensar e de se mover que incorporamos ao longo da vida. "É uma espécie de surrealismo que usa o corpo para se expressar", define.

Mas como é possível, então, que se ensine isso a alguém? Yoshito ri da pergunta e do meu espanto. "Quero ensinar a verdadeira conexão que existe entre dança e vida. E posso usar qualquer coisa para fazer isso: um pedaço de papel, um retalho de tecido. O butô repousa sobre um ponto básico: aquilo que você tem dentro de si. O que se faz é trazer isso à tona. Fazer emergir o melhor. Encontrar também uma maneira suave de entrar em contato com o que há de pior em nós. É algo que talvez as pessoas deste mundo precisem saber e o palco pode ser um lugar para se aprender isso."

Yoshito só fala japonês. Um intérprete depois traduz para o inglês suas respostas. Enquanto conversamos, portanto, não preciso prestar atenção nas suas palavras. E isso é bom. Cada uma de suas frases vem acompanhada por movimentos das mãos. Mesmo sentado, é como se representasse algum balé hipnótico: calmo, terrível.

Foi assim que seu pai continuou a dançar até os 100 anos. Ainda depois de perder a capacidade de andar, preso à cadeira de rodas, continuou a se apresentar fazendo coreografias utilizando apenas os braços, os dedos. Quando se fala de butô, a morte é um pensamento que não vai embora. Ficamos a oscilar entre opostos: masculino e feminino, mudança e permanência, o que está vivo e o que não está mais.

Kazuo Ohno era um homem religioso. Sua arte surge no pós- guerra. Depois de ele mesmo ter passado nove anos no front. "É natural que tratasse da morte", considera Yoshito. "Também tento mostrar que a guerra não é algo bom. Mas existe outra ideia aí. A mãe que alimenta o bebê com seu corpo e sangue também morre um pouco para gerar a vida." É sem deixar de sorrir, que ele me diz que "vivos e mortos estão juntos, ocupando o mesmo lugar, indissociáveis".

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