Filarmônica de Minas Gerais surpreende em concerto memorável

O memorável concerto da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais na última quinta-feira na Sala São Paulo reforça a tese de que o trabalho intenso, diário e sistemático de um maestro com sua orquestra só pode levar - havendo competência e comprometimento de todos, é lógico - a resultados formidáveis. No panorama sinfônico brasileiro, a Osesp não está mais só. Tem, daqui para a frente, esta ilustre companhia.

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2010 | 00h00

Em apenas três anos de trabalho, o experiente e talentoso maestro Fábio Mechetti construiu uma personalidade afirmativa para a orquestra. Todos lançam-se à interpretação das obras com uma gana de dar gosto. Mas vontade, sabemos, não é tudo. A ela se junta o trabalho duro, que sobressai naturalmente em leituras ao mesmo tempo empenhadas e adequadas.

Esta penca de elogios justifica-se em vários níveis. Primeiro, na construção do programa: o repertório certeiro propiciou ao grupo mostrar todas as suas armas. Em Berlioz, os velocíssimos uníssonos iniciais nas cordas não soaram pastosos, como sempre acontece com orquestras brasileiras - mas claros, precisos. A curta abertura O Corsário é enorme desafio técnico para qualquer orquestra. Ali já se vislumbrava um concerto de alto nível.

O violoncelista alemão Alban Gerhardt foi o parceiro ideal de Mechetti para uma interpretação irretocável do Concerto para Violoncelo de Samuel Barber, o compositor norte-americano cujo centenário de nascimento foi timidamente comemorado por aqui. Ele é muito mais do que o conhecidíssimo Adagio para cordas, imortalizado por Bernstein no enterro de Kennedy, fato provado em março passado pelo ótimo Augustin Hadelich no concerto para violino com a Osesp. Gerhardt, de seu lado, não é músico que se intimide com obstáculos técnicos: superou-os com folga e ainda deu de presente à plateia um belíssimo Bach solo de presente. Dono de volumosa sonoridade, foi tão articulado e sensível ao vivo quanto em antológicas e recentes gravações para a Hyperion de sonatas de Alkan/Chopin, Shostakovich/Schnittke.

Mas o melhor ainda estava por vir. Mechetti é um notável e amadurecido regente, capaz de extrair de seus músicos mais do que o possível, o máximo, nas Danças Sinfônicas de Rachmaninov. Cinzelou cuidadosamente a química entre as dinâmicas e naipes, acariciou cada frase. E, cá entre nós, rege com uma fluidez e clareza admiráveis. Por tudo isso, a resposta da orquestra foi espetacular. Até porque a partitura é de uma riqueza incrível no trato da floresta de timbres presente em uma sinfônica. Logo depois de escrever esta sua derradeira obra, em 1941, Rachmaninov confessou que considerava facílimo compor para orquestra: "A variedade de cores dos instrumentos provoca em mim diferentes ideias e efeitos". Ele mesmo disse que estas três danças são uma sinfonia disfarçada em que ele descreveu o meio-dia, o crepúsculo e a meia-noite. Prefiro pensar num criador em plena posse de seu gênio criativo "brincando" com a orquestra (o andante con moto central "tempo di valse" foi um show duplo, de qualidade na invenção musical de Rachmaninov e na sutileza da regência de Mechetti). No "Non Allegro" inicial, fica claro, pelo destaque concedido ao sax-alto, que o russo, então radicado nos Estados Unidos, deve ter ouvido bastante alguns gênios do sax-alto jazzístico dos anos 30, como Johnny Hodges e Benny Carter, e até mesmo os inícios de Charlie Parker. Existe algo mais delicioso de se curtir do que contrabandos como este?

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.