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Fila

Talvez uma das coisas que melhor simbolize o povo de um país seja a fila. A fila, é um meio organizado e democrático das coisas acontecerem de forma pacífica. Sem a "invenção" da fila, seria um deus nos acuda, um salve-se quem puder. Eu fico imaginando que tipo de confusão estava armada, para um ser humano ter berrado pro alto: gente, por favor, vamos fazer uma linha reta aqui com as pessoas que chegaram primeiro!

Fábio Porchat, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2014 | 03h05

No Brasil, sabemos todos, as filas não crescem, elas engordam. Nós aqui furamos fila e é isso. Foi institucionalizado que o brasileiro é um povo que não tá nem aí pro próximo e vai passar na sua frente na cara dura sem nem tentar inventar uma desculpa.

O problema é que, para uma pequena parcela da população, e eu me incluo nela, a fila vale sim! E ver algum espertalhão passar na minha frente me gera um tipo de raiva que, eu tenho certeza, é igual a raiva que sentimos quando o Bolsonaro é eleito. Sabe isso? Quando você se pega falando sozinho: pera aí, mas não é possível que isso esteja acontecendo.

Furar fila tinha que ser pecado na Bíblia. No antigo testamento, inclusive, que era pra já valer pras três religiões. Eu prefiro um céu onde tenham pessoas que não tenham ido a missa todo domingo, do que um céu de pessoas que passam na frente das outras porque simplesmente é assim que é. E para justificar a malandragem, vale de tudo.

As pessoas criam suas próprias lógicas para se perdoarem de fazer errado. A pessoa não sabia onde terminava a fila, então ela furou. A pessoa não sabia que tinha fila, quando descobriu já tinha furado, então deixa. A pessoa cria uma fila paralela, porque afinal de contas, é uma fila. Uma outra, muito menor do que as outras pessoas estavam, uma fila que só existe na sua cabeça, mas é uma fila.

A fila única, ao meu ver um aprimoramento da fila, essa então, não é compreendida mesmo. Porque os brasileiros querem se dar bem. Qual é a graça de ficar numa fila que tá todo mundo? O legal é pegar uma fila e ver que você foi atendido primeiro que o trouxa da outra fila. E, as vezes, a própria fila se rebela e cria uma fila dissidente.

Muitas vezes porque se sente injustiçada com os furões. Quer dizer, a pessoa resolve prejudicar quem está corretamente na fila por causa de um idiota. Não seria mais coerente prejudicar o idiota? Porque agindo assim, você, que estava certo, virou um idiota igual. Um amigo me falou: "ah, mas essa é a cultura do Brasil, é assim mesmo". Entendi, a cultura no Brasil é ser babaca agora? E, se você que está lendo isso e pensando: "eu não sou essa pessoa. Eu nunca faria uma coisa dessas".

Pense de novo. Pois é impressionante como nenhum de nós nunca somos essas pessoas. Nunca ninguém furou fila, andou pelo acostamento, subornou o guarda, parou na ciclovia, parou na vaga de deficiente... É incrível como nós sempre somos maravilhosos e os outros são sempre "brasileiros".

E-mail: fabio.porchat@estadao.com

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