Figura na Sombra, de Luiz Antonio de Assis Brasil

Figura na Sombra é o quarto e último romance da série dedicada aos "Visitantes do Sul". O conjunto incluiu o premiado O Pintor de Retratos (2001); A Margem Imóvel do Rio (2003) e Música Perdida (2006). Os títulos podem ser lidos de forma independente, porém todos desenvolvem agudas reflexões sobre a centralidade da experiência dos viajantes europeus oitocentistas, tanto na constituição da modernidade ocidental, quanto na formação das literaturas latino-americanas.

João Cezar de Castro Rocha,

30 de novembro de 2012 | 21h39

Em O Brasil não É Longe Daqui (1990),Flora Süssekind propôs que os relatos de viajantes desempenharam um papel decisivo na emergência da prosa de ficção entre nós. De igual modo, em Los Viajeros Ingleses y la Emergencia de la Literatura Argentina (1996), Adolfo Prieto expôs um princípio similar. Aliás, hipótese atualizada no ensaio de Paloma Vidal, Escrever de Fora. Viagem e Experiência na Narrativa Argentina Contemporânea (2011).

Contudo, em Figura na Sombra, e em outros títulos da série, Assis Brasil inova, pois sua narrativa trata prioritariamente dos efeitos da América na mentalidade europeia, ou no destino de um personagem. Assim, menos do que o estudo da formação do próprio - o latino-americano - através da assimilação do alheio - o europeu -, Figura na Sombra analisa o colapso potencial de certa epistemologia europeia em seu confronto com a realidade americana.

O romance contrasta concepções adversárias, dramatizadas nas memórias do naturalista francês Aimé Bonpland (1773-1858), transformado em Don Amado Bonpland, cultivador da yerba mate na região do Rio da Prata.O romance se estrutura a partir da transformação do respeitável Aimé no recluso Don Amado. Para tanto, duas visões do mundo são confrontadas.

De um lado, Alexander von Humboldt (1769-1859) representa a autêntica metonímia do propósito de reduzir a diversidade aparentemente infinita dos fenômenos naturais a um número limitado de leis. De outro, Aimé Bonpland é apresentado como a metáfora de um tipo de conhecimento que idealmente reuniria preocupação teórica e dados empíricos.

O objetivo do naturalista não poderia ser mais claro: "- Tudo isso fará um sentido - disse Humboldt". A palavra sentido, aliás, é dominante na narrativa, anunciando o paulatino afastamento dos dois homens de ciência, que de 1759 a 1804 realizaram uma viagem de exploração às regiões equinociais. O alemão buscava o sentido último do universo. Nas palavras do narrador, referindo-se ao título de sua obra-prima: "(...) resumiria tudo o que existe na Terra e no espaço. O título seria: Cosmos".

Por sua vez, Dom Amado foi seduzido pelo império dos sentidos, abandonando a parceria com Humboldt ao se apaixonar pela Imperatriz Josefina e, posteriormente, ao se identificar com os ermos sul-americanos e, sobretudo, com o cultivo da yerba mate.

O conflito se mostra insolúvel no capítulo 27. Ora, "em pleno coração dos Andes", os dois viajantes encontram "dezenas de palmeiras que emergiam da bruna". O problema é que, segundo o conhecimento do tempo, "palmeiras crescem em ambientes tropicais baixos". Aimé anota a contradição: "Aquelas palmeiras, ali, não tinham qualquer sentido". Humboldt, contudo, não se altera: "Uma bela teoria não pode ser destruída por uma palmeira".

A partir desse momento, Aimé começa a se metamorfosear em Don Amado. Metamorfose encenada na pluralidade de vozes narrativas que articulam o romance. A ação principia em 1858, ano da morte do francês. Ao receber a visita de um jovem cientista, Aimé inicia o relato de sua vida; porém é Don Amado quem o conclui: "sua última palavra, que ninguém entendeu, foi Céroxilon". Isto é, como esclarecido pelo narrador da trama, esse foi o nome científico dado pelo jovem Aimé à palmeira que ameaçou a "bela teoria".

Esse esclarecimento constitui o único senão que se pode fazer ao perfeito domínio de Assis Brasil da técnica literária; afinal, é como se a vida à deriva do francês fosse narrada com a firmeza inabalável do alemão. Nesse caso, nenhum imprevisto pode destruir uma bela narrativa. Infelizmente: pois é como se a fascinante biografia do maduro Don Amado fosse narrada apenas com os olhos ordenadores do jovem botânico, ávidos por encontrar o sentido último de todas as coisas - projeto justamente desacreditado por isso que chamamos literatura.

João Cezar de Castro Rocha é professor de literatura comparada na UERJ

 

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