Figura ímpar da contracultura à moda brasileira

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2012 | 03h10

JJJJ ÓTIMO

JJJ BOM

A contracultura está na moda. Ou voltou à moda. Na verdade, talvez, nunca tenha saído de cena. A mensagem libertária do final dos anos 50, início dos 60 provavelmente ainda não deixou de fazer sentido e talvez faça até ainda mais hoje em dia. Tem sobrevivido em seus cultores mais notáveis e midiáticos, como Caetano, Gil, talvez Zé Celso e agora coloca em cena a figura de Jorge Mautner, neste belo documentário de Pedro Bial e Heitor D'Alincourt.

Não que Mautner fosse uma figura menor. Nada disso. Apenas, talvez, fosse ofuscado pelo brilho excessivo de outros. O filme o repõe em seu lugar. Na verdade, encontra um lugar para Mautner, não apenas na vaga contracultural, mas na própria cultura brasileira, em um dos seus aspectos fortes - a diversidade étnica, o melting pot causado pela quantidade e qualidade dos imigrantes que aqui se instalaram.

Mautner é um deles. De família já mista (judeu austríaco com católica) é legítimo filho do Holocausto. Seus pais vieram ao Brasil expulsos pela guerra e pela perseguição aos judeus. A família se estabeleceu no Rio mas, com o divórcio dos pais, o menino veio para São Paulo, para morar com a mãe e o padrasto. Em Sampa, cidade de imigrantes de todos os cantos do mundo, caiu em caldeirão cultural ainda mais diversificado.

O trabalho com material de arquivo, para evocar esses anos em transe da humanidade, é muito bom. Nos joga em cheio no rumor da História e relembra que as pessoas, mesmo as mais criativas, levam essas marcas do seu tempo. Mautner expressou seu tempo não apenas em versos e músicas mas no cinema. É roteirista de Jardins de Guerra, de Neville D'Almeida e dirigiu, em Londres, o malucaço O Demiurgo, feito com sobras de negativo de Queimada!, de Gillo Pontecorvo, como informou Pedro Bial.

Transformada em característica de geração, a contestação aparecia na música, nos filmes, mas também no comportamento. Uma vida "à margem do sistema", como se dizia na época. E que não se dava sem conflitos, tanto com as autoridades constituídas quanto com as gerações seguintes. Um dos trechos mais reveladores é o encontro de Jorge Mautner com sua filha, Amora, hoje conhecida diretora de TV da Globo.

Na conversa, ela cobra o pai. "Esse nome me custou muita gozação na escola." Inútil dizer que havia a vantagem de não ter nenhuma coleguinha com o nome igual ao seu. Há uma fase da vida em que as pessoas não querem se diferenciar, querem ser iguais às outras. E filho de maluco beleza sofre. Amora se queixa também de que o pai andava nu pela casa. É engraçado, e se você for pensar bem, não deixa de ser curioso. Uma geração rompe com tudo, ou quase tudo; a seguinte recupera valores. E assim caminha a humanidade. Dessa fricção, anda-se um pouco mais à frente. Mautner, como outros, é um desbravador. Mesmo que o filme não entre em detalhes mais íntimos, adivinha-se uma vida de grande riqueza pessoal, ao lado da realização artística.

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