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Fígado

Memórias de um ex-glutão

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2018 | 03h00

Memórias de um ex-glutão.

Se você pensar no mapa da França como um corpo humano com os braços e as pernas estendidos então saberá onde é o Perigord: é ali onde, no nosso corpo, fica o fígado. Um lugar apropriado, pois, no Perigord, o fígado nunca está longe do pensamento. Nem do nosso nem o do ganso, pois nós o matamos para ter seu “foie gras” e ele nos ameaça com o colesterol.

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O Perigord é uma das regiões bonitas da França. Segundo muitos, a mais bonita. Está cheio de cidadezinhas pitorescas e sítios arqueológicos célebres como as cavernas com pinturas pré-históricas de Lascaux. Mas ninguém vai ao Perigord sem pensar na comida típica de região. Nos patos, nas trufas e, acima de tudo, no fígado gordo dos seus gansos.

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Uma vez, há alguns anos, planejamos uma ida ao Perigord. Estávamos em Paris, pegaríamos o trem no dia seguinte, e cometemos uma imprudência. Ligamos a TV do hotel no meio de um programa em que a Brigitte Bardot falava sobre a crueldade com os animais, e o exemplo que escolhera era justamente o que fazem com os pobres dos gansos do Perigord, alimentando-os à força para hipertrofiar seu fígado. Não dormimos bem naquela noite. Mas o remorso não nos deteve. Seguimos viagem e comemos o produto do sacrifício do ganso várias vezes, de várias formas, com uma alegria cada vez mais selvagem.

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As pinturas da gruta de Lascaux, que só têm iguais nas cavernas de Altamira, na Espanha, não podem ser visitadas. Estavam sendo destruídas pela poluição humana. Mas para que ninguém perdesse o espetáculo foi construída uma réplica da parte mais importante da gruta, supostamente perfeita até o menor calombo, e copiadas as pinturas de animais feitas nas suas paredes há mais de 20 mil anos.

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As pinturas impressionam pela sofisticação. O maior mistério de Lascaux, Altamira e outros locais parecidos acaba sendo não o significado dos bichos e símbolos pintados – símbolos que se repetiam em lugares e épocas sem qualquer ligação imaginável na pré-história – mas o que aconteceu com a sensibilidade humana entre o tempo das cavernas e o começo “oficial” da história da arte. Pois os artistas de Lascaux tinham a noção de perspectiva, um discernimento ausente em outros artistas primitivos e que ficou dormente até reaparecer, como uma revelação, na Renascença.

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Pode-se imaginar a revolução no pensamento que foi essa redescoberta de que a percepção de profundidade podia ser reproduzida pictoricamente. E, no entanto, os anônimos artistas das cavernas sabiam isto instintivamente. Sem falar na sutileza do seu traço, na inteligência da estilização de detalhes como olhos e chifres, refinamentos que só foram reaparecer, e na pintura oriental, alguns milhares de anos depois.

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Talvez a sensibilidade tenha os seus ciclos próprios, independentes da evolução de outras capacidades humanas, e da técnica. Ficamos mais bem aparelhados e produtivos em etapas sucessivas, mas o bom gosto vai e vem sem qualquer lógica ou cronologia aparente. Como o comprimento das saias. 

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Enfim, um bom tema para conversa comendo um foie gras num restaurante do Perigord. Sem deixar de cuidar da porta. Vai que entrasse a Brigitte Bardot.

 

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