John Macdougall/AFP
John Macdougall/AFP

Fiennes surpreende com o bom Coriolanus

Primeira direção do ator que também faz o papel-título é fiel a Shakespeare

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2011 | 00h00

Havia motivos para desconfiar de que Coriolanus, talvez, não fosse um bom filme - uma transposição de Shakespeare para a atualidade, dirigida por um ator que também é um astro, Ralph Fiennes. Homens e mulheres de pouca fé, regozijai. O filme é bom. A adaptação - por John Lone, o roteirista de Gladiador - capta não apenas a intensidade dramática do original como encontra a ambientação para a história de antagonismo que está na origem da peça (e do filme).

O próprio Fiennes faz o papel-título e, como tal, ator, produtor e diretor, foi chamado a explicar sua adaptação. Mas a coletiva de imprensa foi dominada por Gerard Butler, que faz seu oponente, Aufidius, e Vanessa Redgrave, sua mãe. Às vezes você tem vontade de morrer ou de pedir que o chão se abra - as primeiras perguntas para Gerard Butler batiam na mesma tecla. Como é, para um astro de comédias românticas, fazer um filme de recorte mais intelectual? Ele ironizou. "É bom se arriscar. Eu assumo esses desafios para saber se consigo estar à altura de projetos mais intelectualizados."

Depois, esclareceu - "Meu primeiro papel profissional foi em Coriolanus, no teatro. Um papel pequeno, mas esse universo não me é tão estranho." Vanessa Redgrave explica sua personagem, Volumnia. "Ela pertence a uma família que está no poder há séculos. Sua família e o poder estão entrelaçados, seu filho representa, para ela, a glória de Roma." A peça passa-se em Roma, na antiguidade clássica. A filmagem foi na Sérvia, com ecos da Guerra da Bósnia. Fiennes conta que fez Coriolanus no teatro há dez anos. Ficou obcecado pela peça e pelo personagem.

"Sempre pensei que o texto de Shakespeare era muito atual e seria enriquecedor criar metáforas relacionando o verbo clássico com a confusão do background do nosso tempo." Nestes dez anos, ocorreram o ataque às torres gêmeas, a Guerra do Iraque, a crise econômica do fim de 2008. Coriolanus, o filme, abre-se com a crise. O letreiro informa - Um lugar chamado Roma. O povo sai às ruas pedindo pão. Coriolanus vence os inimigos que estão às portas de Roma, mas é banido numa operação que reúne grupos radicais e políticos encastelados no Senado. Há uma fala famosa, quando ele, banido, bane os próprios romanos de sua vida. Coriolanus, Fiennes, une-se ao antigo inimigo, Butler, para sitiar Roma. Sua mãe e a mulher vão pedir clemência. O final é pura tragédia - som e fúria significando muito.

Como transpor a poesia de Shakespeare para a atualidade, sem trair o verbo elizabethano? "Era o nosso desafio. Estava no roteiro, mas era um aprendizado permanente, entre nós, os atores. Ouvir um ao outro, captar as nuances das palavras. Escutar com os ouvidos e falar com o coração", define Vanessa Redgrave. Ela não poupou elogios a Fiennes como diretor. "Ele tem suas ideias, mas ouve a gente, o que é sempre muito bom." Fiennes ressalta uma frase de um dos antagonistas - "Se não fosse eu, gostaria de ser você." A admiração mútua é forte. Para mim, são como samurais, com seus códigos de vida e morte, de honra e dignidade. Gerard Butler contou de sua emoção - "Meus dois primeiros dias no set foram na cena em que Volumnia vai suplicar ao filho por Roma. Digo duas ou três palavras no fim da cena. Na maior parte do tempo, fico olhando e ouvindo. Ver essa mulher atuar (apontou para Vanessa) foi um raro privilégio. Sua filha estava no set. Perguntei-lhe de onde vem essa extraordinária energia de Vanessa, essa intensidade. Sua resposta - nem ela sabe. "Mamãe simplesmente faz."

Coriolanus foi exibido na sessão de imprensa do meio-dia. De manhã cedo, a atração veio da Rússia. Um Sábado Inocente, de Alexander Mindadze. O sábado em questão parece inocente - comum - mas, na verdade, é marcado por uma nuvem ameaçadora. Houve um acidente da usina nuclear de Chernobyl que foi abafado pelas autoridades do regime comunista. Um jovem afiliado ao partido fica sabendo da gravidade do caso e tenta fugir com a namorada, mas ela quebra o salto do sapato, eles perdem o trem e... Mindadze denuncia o controle da informação sob o comunismo mostrando uma humanidade alienada e que dança e bebe até cair num casamento. O dia dos desesperados - velhos conflitos (ideológicos) afloram. A câmera se mexe o tempo todo, parece bêbada como os personagens. Conceitualmente, faz sentido, mas a sensação é de que o próprio filme perde o eixo. A Rússia dificilmente vai bisar o Urso de Prata do ano passado em 2011.

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