FIDELIDADE PROVA DE ALTO E MAU SOM IDEIA É 'ACHATAR' E GANHAR POTÊNCIA

Como a disputa pelo hit mais alto afeta a qualidade sonora da pop music contemporânea

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2012 | 03h07

Você já parou para ouvir a nova da Madonna? Se o single tocou no carro, no celular do amigo, ou no rádio a pilhas do cobrador, as chances são que sim, você já prestou atenção em Give Me All Your Luvin'. Não que a canção tenha algo de especial. A melodia é anêmica, a batida é comum. Fora a curiosidade pela voz de Madonna, nada faz com que o single se destaque. Mas o volume de Give Me All Your Luvin', comparado ao que tocou antes, certamente sequestrou a sua atenção, pois o single é um caso corriqueiro do nível de decibéis alcançado pelo pop sintético atual, em que a dinâmica sonora das canções é achatada impiedosamente para chegar ao limite entre o volume máximo e a distorção.

Para ser justo, Give Me All Your Luvin' trilha o lado menos aloprado das guerras de volume, ou Loudness Wars, como são conhecidas. Madonna masterizou o single e seu novo disco seguindo diretrizes da Apple para a iTunes Store - regras concebidas recentemente para botar limites nos anabolizantes sonoros que deixam as canções mais altas. Mas a estética comprimida do possível hit, em que graves, médios e agudos parecem uma família de oito viajando em um Uno Mille, caminha de mão em mão com o modelo usado por Rihanna, Katy Perry, Kanye West, Drake, Ke$ha e outras estrelas atuais.

"Há uma certa pressão feita nos engenheiros de som para que eles façam o single tocar o mais alto possível", explica Daniel Wyatt, produtor e engenheiro já indicado para os Grammys, que trabalhou com Norah Jones, The Roots e outros. "Quanto mais pressão, mais os caras comprimem a música para satisfazer artistas e empresários", conta. O intuito é que as canções chamem atenção no rádio, uma estratégia que data dos dias dos girl groups sessentistas. Para alguns aficionados do som, o estado atual reflete apenas uma preferência estética. "O que acontece é que a própria mixagem destas canções é modelada no europop do início dos anos 90", explica o músico El Guincho, que tocou em São Paulo na semana passada.

Mas a briga tem resultado em casos polêmicos que vão além de escolhas estéticas, como o caso do incensado disco My Beautiful Dark Twisted Fantasy, de Kanye West, lançado no fim de 2010. A dinâmica do disco é tão comprimida que as faixas invariavelmente se distorcem, dando a sensação de que há algum problema no sistema de som em que estão sendo tocadas (foram dias antes que este repórter percebesse que seu home system não estava quebrado).

Twisted Fantasy provocou a ira de puristas de todos os lados, tanto os que discordavam da qualidade da música (o disco recebeu nota máxima em uma série de publicações) quanto os que sentiam que West tinha extrapolado os limites de volume.

A onda de animosidade foi melhor sintetizada em um ensaio do jornalista e professor Nick Southall para o site The Quietus, um trabalho que, de acordo com o próprio, foi escrito depois que o jornalista devolveu o disco de West como produto estragado à loja em que o comprou. "Aquilo é completamente disfuncional. Não sou purista, se fosse estaria ouvindo discos de Diana Krall. Só gosto de ouvir música em alto volume, sem que o som se rasgue", explica. De acordo com Southall, o "natural é pensar que isto é culpa dos engenheiros. Mas em minha pesquisa, me dei conta de que diversas vezes é o artista que empurra as coisas além do limite."

As teorias de Southall para o volume exacerbado de algumas produções se relacionam com a curiosa queda de demanda por qualidade sonora nos últimos anos. "É um fenômeno difícil de explicar. Enquanto as pessoas compram um Blu-Ray para ter melhor qualidade do que em um DVD, investem em cabos de HDMI, compram TVs de alta definição, enquanto os videogames estão cada vez mais realistas, a indústria musical é a que produz trabalhos com menos fidelidade", conta. "Talvez tenha a ver com o modo de entrega destes produtos. São ouvidos em rádios, celulares e earphones de péssima qualidade, portanto, talvez haja uma falta de preocupação com o produto final, uma queda de qualidade que pode ser negociada por um volume mais alto sem que o consumidor perceba", reflete.

A indústria de videogames, que é citada por Nick como provedora de trabalho com excelente qualidade de som, protagonizou um dos últimos incidentes da briga de volume, quando o disco Death Magnetic, do Metallica, foi lançado como game de Guitar Hero e álbum simultaneamente. O disco tem um volume tão alto e distorcido (um instituto que estabelece padrões de volume o categorizou como um dos mais altos já produzidos) que os fãs que ouviram o mix do videogame, mais baixo e mais bem distribuído, assinaram uma petição para que Death Magnetic fosse mixado novamente.

Para compreender o processo de sobre-compressão responsável pela baixa qualidade sonora de muitos hits de rádio atuais é necessário entender como engenheiros usam dinâmica para turbinar seus mixes. Um compressor, aparelho comum nos estúdios, nivela a distância entre o fortíssimo e o pianíssimo, fazendo com que a faixa se achate, mas ao mesmo tempo ganhe mais potência sonora. Quanto mais isto é feito, mais as frequências gerais são acentuadas, ao mesmo tempo que há cada vez menos profundidade ao som, aquela qualidade que é capaz de nos envolver e proporcionar uma experiência sensorial mais rica. O equilíbrio entre estes dois extremos é definido pelos engenheiros, cada um com seu limite. Quando a música digital (em CD ou mp3) passa além do volume de 0 decibéis, o som distorce, soa defeituoso.

Estes limites são o ponto de discussão das Loudness Wars. Em outras palavras, até que ponto é possível abrir mão da dinâmica em favor do volume? É uma questão que data do final dos anos 50, ou o início do que conhecemos como pop music moderna, época em que Phil Spector se tornou unanimidade entre os produtores de Los Angeles por criar paredes de som que tinham um som muito mais cheio do que os concorrentes ao serem tocadas no rádio. Nos anos 60, os engenheiros da Motown ficaram conhecidos por produzirem os singles mais altos da indústria. No entanto, a compressão de um vinil era limitada por restrições físicas: se o disco fosse muito comprimido, muito alto, a agulha pulava, o que não acontece com o CDs ou faixas de mp3. Assim, a partir dos anos 90, quando o CD virou o formato predominante, novos limites foram alcançados e em alguns casos, como os discos de Kanye West e Metallica, extrapolados. Recentemente, ONGs como a Turnmeup e eventos com o Dinamic Range Day têm buscado conscientizar os ouvintes sobre o assunto. / R.N.

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