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Fidel, etc.

Deixei ordens expressas para que nada de muito importante acontecesse durante minhas férias, e não é que o Fidel me morre, o Trump me é eleito presidente dos Estados Unidos e um apartamento nas nuvens, num edifício que ainda não existe, me derruba um ministro do Temer e me faz estremecer o próprio Temer?

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2016 | 02h00

Primeiro, Fidel. Eis um assunto sobre o qual é impossível ter uma opinião só. Você pode admirar a revolução que derrubou um ditador corrupto e instalou um governo socialista que priorizou a saúde e a educação do povo, além de resistir a anos de bullying do seu vizinho americano, ou lamentar que os mesmos guerrilheiros que incendiaram a imaginação do mundo com sua vitória adotassem um regime totalitário, que prendia opositores e desrespeitava direitos humanos. O entusiasmo com Castro e sua revolução durou das primeiras notícias da insurreição até as primeiras notícias das execuções no “paredón”. Muitos na esquerda justificaram os excessos e mantiveram seu entusiasmo, outros se desiludiram, outros ficaram firmemente em cima do muro. As conquistas sociais em Cuba só poderiam ter acontecido sob o governo forte de um comandante único, ou não? De qualquer maneira, foi-se uma das grandes personalidades do mundo, não importa que opinião - ou que opiniões contraditórias - se tenha dele.

 

A eleição do Trump, como já tinha acontecido com a eleição do Bush há anos, encerra uma ironia amarga. Os colégios eleitorais que deram a vitória a Bush e Trump, embora Gore e Hillary tivessem milhões de votos a mais, foram inventados por Alexander Hamilton, um dos “founding fathers”, ou pais da pátria signatários da Constituição americana. Hamilton temia que o voto direto, “cru” na definição de um analista americano, poderia dar a vitória a algum aventureiro ou demagogo sem capacidade para governar. Ou seja, os colégios eleitorais foram criados justamente para evitar que alguém como o Trump chegasse à presidência. Adendo à ironia: o vice-presidente eleito dos Estados Unidos foi assistir a um musical da Broadway com um elenco multirracial e, no fim da peça, ouviu um recado endereçado a Trump por um ator negro, contra o racismo e contra outras medidas inconstitucionais prometidas pelo novo presidente. Nome do musical: Hamilton. Trump não gostou do recado. 

E chegamos à Bahia, terra de sol e geddeis. O sol é para todos, mas no trigésimo andar fica mais perto. Os geddeis são muitos, mas só alguns são pegos.

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