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Ficções da memória

Meu relato, àquela altura, se tornara tão dramático que eu próprio me toquei: a seguir no mesmo ritmo, dali a pouco não teria como explicar como foi que sobrevivi aos horrores da prisão política. Já não cabia, leve demais, o substantivo prisão – seria preciso recorrer a cárcere, masmorra, calabouço, enxovia, ergástulo.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

01 Março 2016 | 02h00

Convinha baixar a bola, pois na verdade o jovem militante da causa revolucionária não havia recebido, nas mãos da Lei, mais que um puxão de orelha, e apenas em sentido figurado. Como já contei, a tortura a que fui submetido nos porões da ditadura, no caso a cela 3 do Dops de Belo Horizonte, que nem porão era, não foi além do convívio, 48 horas por dia, com um poeta que, esse sim, talvez merecesse estar ali, não por algum feito subversivo, mas pela incontinência com que expelia sua versalhada incendiária.

O passar dos anos, como sói acontecer, foi desfigurando a memória daquele mau momento, até torná-la obesa e distorcida, carente de plástica. Só recentemente fui admitir que minha prisão não durou um mês, como andei contando, mas 17 dias – o que já não é pouco –, entre ser apanhado pelo cangote, qual gato vagabundo de desenho animado, por um militar da mais baixa graduação, e, por me faltar consistente folha de revolucionário, ser devolvido à rua. Faço a correção, mas fique claro que não estou engolindo a contabilidade marota de certo historiador espevitado, aquele para quem a ditadura durou bem menos do que os 21 anos decorridos entre o golpe de 1964 e a eleição de Tancredo, em 1985.

O que me permitiu ajustar às reais proporções minha passagem pelo xilindró foi a releitura daquilo que anotei na época – e eis que, no quinto parágrafo, finalmente chego ao assunto deste papo: a importância de fazer registro escrito de fatos e impressões, hábito que mantenho intermitentemente há muitíssimos anos. Se não há nas minhas cadernetas o que possa interessar a mais alguém, para mim as informações ali rabiscadas têm sido de valia cada vez maior, sobretudo na idade a que tive a imprudência de chegar. Sua releitura, no mínimo, ajuda a repor a verdade dos fatos, se é que isso existe.

Outro dia, por exemplo, topei com anotações feitas no calor da desastrada e desastrosa greve dos jornalistas paulistanos em maio de 1979, que na minha memória acabara por ganhar banhas de fantasia e imprecisão, para não falar nas clarinadas do heroísmo. Engajado na batalha, durante 6 dias fiz piquete, não às portas da Editora Abril, onde trabalhava, mas na entrada do jornal, veja você, do qual sou hoje bem-comportado colaborador. Há uma foto em que, bigodudo e sem um fio de cabelo branco (tive minha fase negra, ou melhor, castanho-escura), fui flagrado em meu ardor de piqueteiro, de braços dados com os companheiros de uma causa tão justa quanto derrotada.

A leitura daquelas anotações, a que não falta o ribombar de quixotescas tentativas de barrar a saída de caminhões carregados (era pelos jornais, em boa medida, que nos inteirávamos do andamento da greve dos jornalistas), me permitiu despir o episódio de toda aura romanesca, e mais, desenterrar lembranças colaterais que não cheguei a registrar em meu diário.

Porque é assim: cutucada, a memória põe para fora muito mais do que você imaginava – e aqui me lembro dos arquivos que ajudaram Pedro Nava a compor as 2.500 páginas de sua memorialística. Quando estranhei a presença de uma partitura entre seus papéis, ele explicou que o registro material daquela valsa, que ele nem sabia ler, tivera o dom de lhe restituir detalhes não exatamente musicais de um baile muito especial da sua juventude.

Anotações pessoais têm outra utilidade além de devolver contornos menos fantasiosos a lembranças já recobertas de pátina mental. Numa conversa em sua casa, na Califórnia, Isabel Allende me contou que guardava cada carta, cada papelucho enviado pela mãe, doña Panchita, de Santiago do Chile. Material para seus livros, comentei, e Isabel cortou: se conservava essa correspondência, era apenas para que pudesse seguir lendo sua mãe, “todos os dias, até o último dia da minha vida”, depois que ela se fosse.

Fica decidido: minhas cadernetas não serão cremadas antes do autor, até para que, se vier o momento da memória zero, ele possa ler, como se lesse coisa alheia, o romance chinfrim de sua vida.

*

A propósito, anote aí: será lançado nesta sexta-feira, dia 4, na Livraria da Vila da Fradique Coutinho, em São Paulo, a partir das 18h30, o primeiro e já maduro romance, Mentiras, de Felipe Franco Munhoz, um dos melhores talentos da nova geração de ficcionistas brasileiros. Vamos lá?

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