JF Diorio/AE
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'Ficção ou não, gosto é de fazer filmes'

Aos 68 anos, Werner Herzog fala da sua admiração pelo Brasil, por Garrincha e do novo filme, sobre o corredor da morte

, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2011 | 00h00

Werner Herzog sempre gostou de viajar. Costuma dizer que, apesar de não fazer tanto quanto na juventude (quando invadia casas de veraneio no interior da Inglaterra para dormir pois era absurdo vê-las vazias), ainda é em suas viagens que procura a "cidade ideal", em que vida, paisagem, cultura e costumes formariam uma combinação perfeita.

Aos 68 anos, sabe que não vai encontrar esse local. Mesmo assim, continua apaixonado pela eterna busca. Prova disso é que, em plena fase de edição de seu mais novo documentário, dispôs-se a vir rapidamente a São Paulo só para participar da abertura de uma mostra em sua homenagem, no Instituto Goethe, e participar ontem do 3.º Congresso de Jornalismo Cultural. "Adoro São Paulo. Considero uma das quatro cidades que são e serão o epicentro da produção cultural mundial - as outras são Xangai, Berlim e Los Angeles. Mas em São Paulo há algo de vibrante, anárquico. As pessoas ainda não entenderam bem o que está acontecendo, mas acho que é algo grande." Sobre o Brasil, principalmente sobre Garrincha, e sobre seu mais novo filme, ele conversou com o Estado:

Você sempre acompanhou a história e a cultura no Brasil? Como Garrincha, que você adora tanto e cuja família já visitou?

Sim, mas deixo claro que Garrincha não é cultura nem história. Ele é a alma do Brasil. Poucos países têm uma pessoa sobre quem a gente pode dizer "se você quer conhecer a verdadeira alma deste povo, conheça este homem". Assim era Garrincha.

Ele não era exatamente o símbolo de um esportista perfeito, mas era um homem fascinante.

Exato. Ele era exuberante. E indisciplinado. Um dia jogava maravilhosamente. Em outro bebia antes do treino. Sua figura sempre me atraiu - um personagem contraditório e humano. Ele era só e alegre ao mesmo tempo. Trágico e feliz. Exuberante. Assim é o brasileiro. Cheguei a vir ao Brasil há alguns anos só para pesquisar (e não para fazer nenhum filme) sobre a vida dele. Cheguei a falar, no meu parco português, com uma de suas ex-mulheres.

O que sente da energia do País?

É esta ascensão, este otimismo. Totalmente ao contrário do filme que estou acabando de filmar e editar.

Sobre o corredor da morte?

Isso. Sempre fui fascinado por investigar o que se passa com as pessoas que vivem a tragédia de saberem exatamente o dia e como vão morrer. Já parou para pensar nisso? É um processo muito intenso. Eu não fumava havia dez anos. E no processo deste filme voltei a fumar. Só consigo gravar por cinco horas, no máximo, depois, tenho que sair e acender um cigarro para voltar a respirar! Estou preparando um grande épico de ficção, no deserto arábico, mas ia filmar em agosto e vou ter de adiar. A situação por lá está muito crítica. Na verdade, não me incomoda isso, porque acho tudo que está acontecendo muito bom. O mundo árabe está tomando consciência de sua importância e de sua autoestima. Mudanças são sempre necessárias.

Sempre fascina a sua capacidade de dirigir tanto documentários como ficção. Como separa as duas narrativas?

Não separo. Já disse e repito. Documentário ou ficção, o que gosto é de fazer filmes. Faço como quero. Do jeito que quero. Aliás, gosto de participar de todas as áreas do cinema. Gosto de dirigir, escrever, montar, filmar e até atuar. Cinema é e sempre foi minha forma de me comunicar com o mundo.

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