Ficção ou ciência exata

Livro de Affonso Romano de Sant'Anna sobre o romance ganha nova edição

ALCIDES VILLAÇA , ESPECIAL PARA O ESTADO, ALCIDES VILLAÇA É PROFESSOR DE LITERATURA BRASILEIRA DA USP, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2012 | 03h12

Sucessivas edições de um livro evidenciam renovado interesse do público, mas pode não ser fácil detectar as razões dessa permanência - sobretudo nos casos em que o sucesso nasceu no embalo já longínquo de uma tendência sazonal. É o caso do relançado Análise Estrutural do Romance Brasileiro, de Affonso Romano de Sant'Anna, de 1973.

A tentação didática dos "métodos" de leitura continua viva? Ao longo das décadas de 60 e 70, os estudos literários no Brasil sofreram os influxos do estruturalismo, mais fácil de se reconhecer pelo peso das operações do que pelo mérito dos resultados. Vi romances se reduzirem a esquemas similares aos diagramas técnicos de funcionamento dos rádios antigos. Na edição de 2012, Sant'Anna tanto relativiza como convalida sua adoção de método, reservando-se a condição de não ser um estruturalista ortodoxo. Mas deixa claro, logo de saída, que "a autêntica análise estrutural ultrapassa os modismos e tem muito a nos ensinar em termos de compreensão sistêmica do real".

Mostrar-se convicto quanto a uma "compreensão sistêmica do real" faz inveja a um físico moderno e a um leitor provocado pelos impactos da criação ficcional. A melhor literatura fomenta prazerosamente a controvérsia, o reconhecimento de tensões, a hesitação entre valores, o intervalo reflexivo - em suma, a relativização do sentido no desejo de determiná-lo. Se toda leitura crítica implica pressupostos e alguma orientação no horizonte, não lhe cabe marcar previamente o espaço singular da criação: leitor e escritor arrostam-se na particularização da obra. Os métodos sistêmicos congelam a experiência da leitura, adiantam-se ao leitor e o poupam de ser crítico. Tem acontecido que, por inveja da exatidão sobre a qual os cientistas não ousam sentar-se, cultores das ditas humanidades passaram a reivindicar para os estudos da linguagem postos insuspeitados da ciência mais exata.

As análises deste livro recaem sobre narrativas canônicas da nossa literatura: O Guarani, A Moreninha, O Cortiço, Esaú e Jacó, Vidas Secas, Laços de Família e Legião Estrangeira. Introduzindo-as, apresentam-se logo os "elementos para uma teoria do romance". A principal conquista está num binômio avassalador e perpétuo: há "dois modelos interpretativos da narrativa de qualquer época, e que chamamos: narrativa de estrutura simples e narrativa de estrutura complexa".

De fato, o método não dispensará extremos de polarização: aguardam-nos uma "oposição de conjuntos", uma "permutação" de elementos, ou a cisão entre o "ideológico e o contra-ideológico", o "mítico e o histórico" - tudo transitando por operações indicadas como "encaixes reduplicadores de modelos" ou "sistema de transformações comparadas". Tais expressões não suprimem, todavia, aspirações menos técnicas: há também a "função da mulher no sistema de transformações" e o "exercício ideológico da estética romântica", por onde algumas válvulas são abertas, deixando o leitor suspeitar que também há vida e representação da vida nas bordas do método.

Os ganhos de tão aplicado exercício com os romances ocorrem apesar do método: nascem do convívio estreito e interessado do autor com a matéria literária e identificam procedimentos textuais (e mesmo valores de cultura) que não obrigam ao artifício de tantos rótulos sistêmicos, levantamentos estatísticos e vetores de significação. Mais: contrariando hábitos acadêmicos, e com engenhosa honestidade, o autor incluiu no livro um longo e integral texto de Antonio Candido - leitura do romance O Cortiço, em que Candido, afastando-se do estruturalismo binômico, propõe um movimento dialético de interpretação. Sant'Anna estampa em seguida sua réplica, ensejando ao leitor instrutiva comparação entre conformação de estilos e alcance de interpretações.

Veja-se por fim, como ilustração, a leitura de Vidas Secas. Depois de vaivéns entre duplos, gráficos, conjuntos e subconjuntos, concluir que Fabiano "é bem o que se poderia chamar de personagem lexema" ou, ainda pior, "um morfema zero", faz justiça ao método adotado, mas não ao problemático personagem. Fabiano pouco fala, mas pensa muito, e não pensa mal: sua hesitação entre ser bicho ou ser homem, entre o valor prático e o sentido misterioso das palavras difíceis e manipuladas deveria nos lembrar que tampouco nós, os sabidos, separamos sempre, metodicamente, o que é bicho e o que é homem dentro de nós, ou distinguimos o que há de incontroverso em cada ato de pronúncia. No tão sugestivo capítulo O Mundo Coberto de Penas (expressão que seria originalmente o título do romance), Fabiano fica intrigado com uma construção figurada de Sinha Vitória; reflete sobre os termos dela; compreende-os, por fim, e então "riu-se, encantado" com esse aprendizado. Graciliano Ramos, que custou a alfabetizar-se, sempre escavou as palavras que buscam reconhecer e expressar o mundo vivo, sem pretender modelá-lo.

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