Ficção obriga atrizes a esquecer a vaidade

Daqui a um mês, Carolina Dieckman vai entrar na máquina zero. É que, neste espaço de tempo, Camila, sua personagem na novela das oito da Globo, Laços de Família, vai descobrir que está com leucemia e começar a se submeter à quimioterapia. Para gravar as cenas da personagem depois do tratamento, a bela atriz de 22 anos terá de abrir mão das madeixas loiras. Ela jura não ligar e se diz capaz de qualquer sacrifício por causa de sua personagem ? seguindo o exemplo de outras atrizes, como Glória Menezes, que também raspou a cabeça para interpretar no teatro uma professora com câncer. Para Glória, a mudança drástica da própria aparência era fundamental para mergulhar no sofrimento da personagem. Deu certo: Jornada de Um Poema foi um dos maiores sucessos da recente temporada teatral carioca. O recurso não chega a ser novo e quase sempre causa impacto. Não foi com a careca mulata Piná que o assanhado príncipe Charles preferiu dançar em outros carnavais? Mais recentemente, também em um carnaval, coube a Monique Evans aparecer careca metida num vestido de noiva confeccionado com pipocas. Hoje a modelo apresenta o TV Fama, da Rede TV, com um megahair de 80 centímetros. E quem não se impressionou quando a bela Demi Moore apareceu com a cabeça milionária lisinha no filme Até o Limite da Honra? As fãs também estranharam quando o galã Marcello Antony, ainda interpretando o engomadinho Marco Antônio da novela Terra Nostra, de Benedito Ruy Barbosa, apareceu sem um fio de cabelo no cinema, interpretando o marginal arrependido de O Dia da Caça.Nuno Leal Maia não ousou tanto, e, se aparece sem cabelo em Malhação, é graças a uma touca de silicone que apenas simula a cabeça raspada. Carolina até pensou que podia usar o mesmo recurso. Mas o autor da novela, Manoel Carlos, preferiu vê-la careca de fato. ?Isso dará mais veracidade à história?, justificou. Maneco aposta no sofrimento da personagem, tida como mimada e dissimulada, para reverter a opinião do público em relação a ela.?Quero ver quem não vai sentir pena da Camila quando ela aparecer careca, doente, tendo que abortar para sobreviver, sem um doador compatível para o transplante de medula.? Sofrimento também faz parte da vida da personagem Bella Landau, que o público da série Aquarela do Brasil conheceu esta semana. Para interpretar a judia romena, refugiada de guerra, a atriz Daniella Escobar não chegou a raspar os cabelos, mas foi só porque não tinha máquina zero na época da Segunda Guerra Mundial. ?A primeira coisa que os alemães faziam com os judeus que chegavam aos campos de concentração era tosar seus cabelos, mas com tesoura. Por isso fiz este corte tão curto, cheio de falhas e buracos.? A caracterização de Daniella também passou por um regime que a fez perder 13 quilos. ?Cheguei a 46 kg, mas queria perder até mais. Quem conseguia sobreviver saía dos campos de concentração em pele e osso.?Como Carolina, Daniella diz não se importar com a mudança de visual. Mas, a exemplo de Glória Menezes, que, desde que raspou a cabeça, só aparece em público com lenços ou bonés, ela também utiliza seus truques. ?Sou gaúcha e lá no Sul sempre usei chapéus. Aqui no Rio é mais difícil porque faz muito calor. Agora estou aproveitando o pretexto para tirar do baú minha coleção?, conta, listando seus preferidos: ?Uma boina vermelha de veludo, um chapéu-coco preto de crochê e um branco estilo panamá?. Claro que chapéus não resolvem tudo. ?Sinto uma falta física dos cabelos?, admite.Bella, que possui uma considerável história dramática, é um dos destaques femininos na trama de Lauro César Muniz e promete ser o melhor papel de Daniella na tevê até agora. A atriz, que estreou na Globo na minissérie Chiquinha Gonzaga, também sob a direção do marido, Jayme Monjardim, tem bons motivos para apostar muitas fichas na personagem. Com muito menos nas mãos, Clara Garcia deixou de ser a amiga da irmã de Laura (Viviane Pasmanter) em outra novela de Manoel Carlos, Por Amor, em 98, para ganhar destaque no remake de Pecado Capital, assinado por Glória Perez um ano depois. Ela foi escalada para mais um papel secundário, o da clubber Rafa, amiga de Vilma (Paloma Duarte), a filha rebelde de Salviano Lisboa (Francisco Cuoco). Mas uma recomendação aparentemente desnecessária e até perversa do diretor Wolf Maya acabou lhe rendendo fama. ?Raspar foi idéia do Wolf. Aceitei, mas abri um berreiro quando me vi no espelho. Fiquei deprimida uma semana. Depois, acostumei, e nunca me senti tão bonita.? A carequinha de Clara tinha bossa. Como clubber, a personagem pertencia a um grupo de jovens que freqüentava a noite vestido de forma extravagante. Na cabeça lisinha da atriz a tendência apareceu na forma de tatuagens de hena.Carolina Dieckman ainda não faz idéia de como vai desfilar pelas ruas depois que raspar os cabelos. Para Camila, a figurinista da novela, Cristina Gross, já escolheu os lenços de algodão, estilo bandana. ?Não optamos pela peruca porque ficaria falso. Os lencinhos dão um ar mais jovem?, diz.A atriz pode aproveitar o momento para seguir o exemplo de outros famosos e fazer um trabalho social. É o que faz o jogador Ronaldinho, um careca por opção, e foi o que fez Clara Garcia, visitando hospitais que tratavam crianças com câncer.?Muitas tinham vergonha da falta de cabelo por causa da quimioterapia. Passaram a ter orgulho porque estavam iguais à menina da novela?, diz Clara.

Agencia Estado,

24 de setembro de 2000 | 22h35

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.