Ficção e história em Sagrada Família, de Zuenir Ventura

A epígrafe é elucidativa: "Só dez por cento é mentira. O resto é invenção", lembrança a uma famosa frase do poeta Manoel de Barros. Com esse ponto de partida, o jornalista e escritor Zuenir Ventura sentiu-se à vontade para escrever Sagrada Família, misto de memória e ficção que a editora Alfaguara lança neste sábado - o lançamento oficial acontece durante a Festa Literária Internacional de Paraty, em julho. "São lembranças que transformei em novas histórias", conta. "Em um determinado momento, já nem sabia mais o que era fato real."

AE, Agência Estado

22 de junho de 2012 | 11h25

Conhecido por grandes obras de não ficção (como 1968 - O Ano Que Não Terminou), além de reportagens clássicas transformadas em livro (Chico Mendes - Crime e Castigo), Zuenir cultivava havia dez anos o projeto de delinear suas lembranças - não na forma tradicional de autobiografia, mas uma mescla movida à nostalgia.

Assim, Sagrada Família concentra-se na cidade ficcional de Florida, na região serrana do Rio de Janeiro, nos anos 1940. Pelos olhos do narrador, Manuéu (alter ego do escritor), surgem personagens hilariantes, como a tia Nonoca, uma viúva fogosa pois ainda jovem, e suas filhas Cotinha e Letinha, incansáveis na luta por um novo amor. Ao traçar o cotidiano de uma pequena comunidade, Zuenir consegue reconstruir um importante período da história brasileira, que tanto compreende a iminente entrada na 2.ª Guerra Mundial como o importante passo na modernização da sociedade.

"Essa foi uma época de muito recato escancarado e, ao mesmo tempo, muita malícia escondida, o que resultava em uma grande hipocrisia", observa Zuenir, que se inspirou na história de duas primas para criar as irmãs Cotinha e Letinha. "Ainda está muito viva a memória da minha família, que me serviu de mote", conta o escritor, que contratou uma pesquisadora para acertar datas e fatos históricos que ambientam a trama, enquanto ele próprio se ocupou de ouvir amigos e outros parentes.

"O cineasta Roberto Farias, por exemplo, meu amigo de infância, cobrou a presença da Viuvinha no livro", diverte-se ele, referindo-se à figura da mulher que se tornou lendária na cidade por iniciar sexualmente os garotos. Embora Florida seja fictícia, Zuenir inspirou-se em seus momentos vividos em Friburgo.

As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.