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Ficção documental

Tom Hanks fala sobre papéis marcantes da carreira e das filmagens de 'Capitão Phillips'

Luiz Carlos Merten/ LONDRES, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2013 | 02h16

Assim como a cena da ópera – a ária La Mamma È Morta, de Andrea Chénier – foi decisiva para que Tom Hanks ganhasse o segundo Oscar, por Filadélfia (houve outro anterior por Forrest Gump), há outra em Capitão Phillips que poderá pavimentar a candidatura do astro para mais um prêmio. O filme que estreia dia 8 se baseia no sequestro de um cargueiro norte-americano por piratas somalis, em 2009. Não é segredo que os Seals resgataram o Capitão Phillips ou que os piratas sobreviventes foram para uma prisão de segurança máxima nos EUA. Depois que tudo termina, a tensão, o medo, o personagem de Hanks tem um colapso emocional. A cena estava no roteiro, foi filmada. E aí, numa conversa com outro participante do episódio real, Hanks e o diretor Paul Greengrass souberam que Phillips teve seu breakdown na enfermaria do navio que o resgatou.

“É a vantagem de se trabalhar com um diretor que foi documentarista”, explicou Hanks ao repórter, numa entrevista em Londres. “De cara, nos propusemos – e se a gente fizer de novo? A cena ficou mais forte.” Pegando carona no que ele conta, o repórter mata uma curiosidade de 20 anos. Como foi feita a cena da ópera, em Filadélfia? “Só quem capta som direto sabe como é difícil trabalhar com várias pistas sonoras. Não é impossível, hoje em dia se fazem milagres, mas não estava dando. Jonathan (o diretor Jonathan Demme) quis suprimir a ópera das filmagem e propôs – e se a gente usasse um ponto? Terminei fazendo a cena no escuro, cronometrando mentalmente o tempo para que a ópera fosse encaixada na pós-produção. Foi uma das cenas mais difíceis que já fiz.”

Tom Hanks parece bem, fisicamente. A diabetes levou-o a cuidar mais da alimentação, do físico. Conversa-se de tudo – carreira, filmes, projetos, saúde. E Oscar. Qual é sua expectativa – ele vai ser indicado de novo? “Diga-me você.” O repórter diz que sim, ele cruza os dedos, mas deixa claro:– “O prêmio só interessa como reconhecimento do trabalho, e esse é um filme que gostei de fazer”.

Embora tenha feito comédias românticas - e a melhor delas talvez seja Sintonia de Amor, de Nora Ephron, com Meg Ryan -, não foi como galã que Tom Hanks se impôs no imaginário do público, a ponto de se converter num dos grandes astros de Hollywood, na atualidade. Dois Oscars - por Filadélfia e Forrest Gump, o Contador de Histórias, em 1993 e 95 -, grandes estouros de bilheteria (e também é verdade que alguns fracassos), Hanks é o primeiro a admitir que está tendo uma vida e carreira privilegiadas. Ele se lembra do seu começo, como jovem comediante, em Quero ser Grande e Splash - Uma Sereia em Minha Vida. Com o diretor do segundo, Ron Howard - na época, 1984, jovem como ele -, voltou a trabalhar várias vezes.

Sem saber, diz para o repórter o mesmo que Harrison Ford em entrevista ao Estado. "Ninguém constrói uma carreira sozinho e, nesse negócio, principalmente, é preciso muita sorte e também muita ajuda." O sucesso lhe deu cacife em Hollywood e ele é daqueles atores que têm poder de veto sobre diretores. O projeto de Capitão Phillips lhe foi oferecido antes que ao diretor Paul Greengrass. Ele já estava, como se diz, 'a bordo', mas quando o nome de Greengrass veio à tona, alegrou-se. "Há tempos queria trabalhar com ele. Paul possui uma visão que me agrada muito. Faz filmes responsáveis e até engajados, sobre questões relevantes, mas nunca aborrece o espectador com seus discursos de boas intenções. Paul sabe o que é cinema, e o pratica."

Tom Hanks conversa com o repórter em Londres. Capitão Phillips estreia sexta, dia 8, no Brasil. A história é real. O capitão Richard Phillips, do cargueiro norte-americano Maersk Alabama, foi sequestrado por piratas na costa da Somália e permaneceu como refém por cinco dias, com toda a tripulação, em 2009. O caso - e o resgate pela Marinha, os Seals, em 2009 - tiveram ampla cobertura de mídia e a CNN praticamente seguiu toda a história ao vivo, em tempo real. Hanks lembra-se de ter visto o noticiário e até de ter comentado 'Que história incrível!', mas nunca lhe passou pela cabeça que quatro anos depois estaria num filme revivendo toda a odisseia.

"Já tínhamos esboços de roteiros, mas quando Paul (Greengrass) assumiu, a coisa toda deslanchou. Ele não quis fazer uma simples história de mocinhos e bandidos. Paul percebeu as implicações da história, viu nela o reflexo da realidade da globalização. E ele não quis demonizar os piratas. Há uma frase ótima no filme, quando pergunto ao líder dos piratas o que faz e ele responde. 'Sou pescador.' Retruco que pescadores não sequestram pessoas. 'Talvez na América', ele diz. Esse olhar para o outro, essa tentativa de entender o mundo em toda a sua complexidade são típicos de Paul."

O fato de o diretor ter sido documentarista foi fundamental para o desenvolvimento do seu estilo de cinema, e de ação. Greengrass gosta de se documentar e, mesmo trabalhando com convenções dramáticas de gêneros (suspense aqui, espionagem na série Bourne), não cai no clichê. E ele tem sacadas que Hanks define como de gênio. "Filmamos em ordem cronológica, exceto as cenas do começo, que foram feitas no final. Filmar no mar é difícil, mas como estávamos numa embarcação muito grande, e só nossa, não havia interferência. Paul evitou todo contato entre nós, da tripulação, e os intérpretes dos piratas. Você é capaz de não acreditar, mas víamos os barcos se aproximando com homens armados. Quando eles irromperam na cabine, o choque foi grande para todo o mundo. Aqueles caras raivosos, falando uma língua estranha. Depois, fomos nos aproximando e familiarizando, mas nunca soube o diálogo entre eles. Estou sabendo agora que li as legendas", ele brinca.

Anjos e demônios. Barkhad Abdi, que faz o líder do grupo, nasceu em Mogadíscio e hoje mora em Minneapolis, Minnesota. Capitão Phillips é seu primeiro filme, mas ele quer mesmo é ser diretor. Um dia chegou para Hanks e lhe disse: "Não acredito que estou num filme com Forrest Gump!". O cinema, Hanks acrescenta, é uma coisa maravilhosa. "Sei que tem muita gente que contesta isso, a dominação de Hollywood, mas de repente você descobre que é referência para outras pessoas. Não é só divertido ou prazeroso. É uma responsabilidade, também."

E responsabilidade é uma coisa que Hanks tem exercitado mais que nunca. A descoberta da diabetes mudou sua vida. Ao saber que o repórter também é diabético, ele quase para a entrevista para falar de medicamentos, exercícios, alimentação. O repórter brinca - 'Você virou ativista (activist)'; e ele responde - 'Sou practicist, isso sim'.

E Hanks comenta: "É uma doença insidiosa, que muitas vezes você nem sabe que é portador. Nos EUA, o número de diabéticos não cessa de aumentar. A diabetes adquirida é muito forte na América por conta de nossa alimentação. É puro colesterol, triglicérides. E, para soterrar tudo isso, montes de açúcar." Hoje, aprendeu a se cuidar. "Faço ginástica, minha alimentação é balanceada." Está mais magro, elegante. O repórter lembra os quilos a mais de outra entrevista, realizada em Roma, no lançamento de Anjos e Demônios. 'Não é?", ele faz graça.

Por falar em Anjos e Demônios, há uma terceira aventura de Robert Langdon no ar, desde que Dan Brown lançou Inferno. O filme vai ser feito? "Ron (Howard) tem a preferência e trabalha na adaptação, em meio a outros projetos. Quando ele disser que tem o roteiro, me jogo dentro, mas é coisa para 2015." Antes disso, vai aparecer como Walt Disney em Saving Mr. Banks.

Como é fazer personagens reais? Disney, Phillips? "Alguns fazem parte do imaginário das pessoas, outros não. É como Langdon. Até que eu lhe desse uma cara, cada leitor o imaginava do seu jeito." Muitos diretores tornaram-se amigos, mas 'Ron' é especial. "Talvez porque tenhamos começado praticamente juntos, ambos jovens, em Splash. Fomos acompanhando a trajetória um do outro, o sucesso um do outro."

O sucesso a qualquer preço não lhe interessa. "É preciso gostar do que se faz." E ele gosta. Mas também, cada vez mais, quer tempo para si, para a família. "Participo de algumas atividades sociais, mas gosto de recolhimento, de leitura. Minha fase de balada (Hanks está com 57 anos) já passou."

Sr. Disney

Depois de Phillips, mais um personagem real

entra para a galeria de Tom Hanks – trata-se

de Walt Disney no filme Saving Mr. Banks,

que estreia em dezembro nos Estados Unidos.

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