Projeto Portinari
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Ficção de Rodrigo Melo Franco de Andrade é relançada em edição para bibliófilos

Oito contos da obra foram os únicos textos de ficção escritos pelo primeiro diretor do Iphan

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S. Paulo,

20 de julho de 2012 | 18h00

A brevíssima carreira de ficcionista do primeiro diretor do Iphan - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional -, o jornalista e advogado mineiro Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898-1969)), resume-se a apenas um livro, Velórios, publicado em 1936. Experiência única, mas nem por isso pouco marcante. De Mário de Andrade a Antonio Candido, passando por Manuel Bandeira, todos observaram em uníssono que o autor - que foi colaborador do Estado - não tinha o direito de escrever tão bem assim e abandonar seus leitores. Mas foi o que ele fez. Se dependesse de Rodrigo, Velórios teria caído no esquecimento. O escritor tentou até mesmo tirar de circulação os 200 exemplares que pagou do próprio bolso, movido por rigorosa autocrítica. Convidado, no mesmo ano da publicação do livro, para dirigir o então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), ele considerava que qualquer desvio de rota poderia impedir o exercício de sua missão.

A situação era de fato embaraçosa para um servidor público. Getúlio Vargas acabara de consolidar sua aliança com os militares e criado o Tribunal de Segurança Nacional, articulando o sujo golpe que levaria à decretação do Estado Novo, em novembro de 1937. Rodrigo M. F. de Andrade tinha uma missão a cumprir: preservar a todo custo o patrimônio histórico e artístico num país de desmemoriados, nem que para isso tivesse de trabalhar sob o tacão de um ditador populista. Sua coletânea de contos, um inventário sobre o linchamento moral de vivos e mortos nos velórios da classe média brasileira foi, enfim, deixada de lado, num ato de imolação autoral em prol do patrimônio histórico. Em 1974, cinco anos após a morte do autor, a editora José Olympio ressuscitou-o. Em 2004, a Cosac Naify publicou uma nova edição de Velórios (144 págs., R$ 49), acrescida de valiosa fortuna crítica - desde uma carta de Mário de Andrade a Rodrigo, na qual elogia o livro, em 1936, a um texto de Antonio Candido publicado pouco depois da morte do amigo, além de artigos de Manuel Bandeira e Sérgio Buarque de Holanda.

A referida edição permanece em catálogo, mas uma nova acaba de chegar às mãos de ávidos colecionadores de livros raros - provável futuro dos volumes impressos na era dos e-books. Autorizada pela Cosac Naify, detentora dos direitos do autor, a edição de Velórios tem apenas 351 exemplares. Ela foi feita de forma artesanal pela sociedade mineira Confraria dos Bibliófilos do Brasil e traz os oito contos do livro ilustrados pela artista Yara Tupinambá, além de um prefácio da filha do autor, Clara de Andrade Alvim. Ela acredita que a tensão interior dos textos é um dos motivos que garantem a perenidade de Velórios. Há, segundo a filha do escritor, "uma certa atmosfera de melancolia que atravessa os episódios, ou permanece depois da história contada", a despeito das "conversas irrisórias" que propiciam os velórios, "tão ao gosto da ironia modernista".

De fato, o velório deixa de ser tragédia e o drama está só de passagem nesses contos, como observou o acadêmico Cândido de Mota Filho (1897-1977). O tradutor de origem húngara Paulo Rónai (1907-1992), outro entusiasmado leitor de Rodrigo M. F. de Andrade, destacou o humor negro do autor, que se delicia, segundo ele, com a fauna circulante nos velórios brasileiros. O que haveria de característico nele? Primeiro, o velório verde e amarelo incentiva a conversa mole dos que velam o corpo, além de promover bizarras cenas de ópera bufa à beira do caixão. A própria palavra velório era desconhecida fora do Rio de Janeiro à época da primeira edição. Nem Mário de Andrade sabia o que significava, mas Manuel Bandeira gostou tanto dela que acabou batizando o livro do amigo.

Quase ensaios do caráter brasileiro - pelo menos do caráter suburbano-, os contos de Velórios esboçam em pequenas pinceladas os traços da matula selvagem que vara a madrugada contando piadas ou tecendo comentários maldosos em torno de corpos gelados. O mais engraçado, sem dúvida, é Martiniano e a Campesina, o preferido de Antonio Candido. Nele, a desbocada viúva Ismênia impreca contra tudo e todos. Grita no velório, ameaça contar os podres dos companheiros militares do oficial morto, que atrapalharam sua carreira, e, principalmente, amedronta com seu berreiro o narrador, que tem um "desejo violento de praticar as mais desvairadas libertinagens" com a filha do falecido Martiniano.

É provável que Nelson Rodrigues não tenha lido o livro. Entretanto, absorveu por osmose a ironia de Melo Franco de Andrade. Se Zulmira, a sua tuberculosa suburbana da peça A Falecida, sonha com um enterro de luxo, também os personagens do contista mineiro deliram com o ritual da morte, principalmente o garoto do conto Quando Minha Avó Morreu, cujo maior desejo é o de vestir luto - realizado, por poucos minutos, com a morte da velhinha. O conto seria autobiográfico, como observou o memorialista mineiro Pedro Nava (1903-1984), amigo do autor. Aliás, outros seis contos de Velórios teriam como matriz episódios reais, o que justificaria a fala fluente e coloquial de Rodrigo, empenhado em reproduzir o que ouvia dos amigos, entre eles Manuel Bandeira.

O poeta pernambucano conheceu um dos personagens do livro, retratado em O Enterro do Seu Ernesto. Era um burocrata que morreu de câncer no piloro, vivia com a mulher tuberculosa numa casa de cômodos, cuja senhoria era alcoólatra, e foi enterrado com recursos da Ordem Terceira da Penitência. No dia do enterro, suas irmãs desataram a falar mal da cunhada, que hesitava em beijar o defunto.

Outro conto que Nava garantiu ser autobiográfico é Iniciação, história do adolescente Joaquim, que, fascinado pela empregada Zulmira, acaba tendo com ela sua primeira (e frustrada) experiência carnal. Cheio de culpa, num tempo em que a Igreja mandava mais que Freud nos confins de Minas, Joaquim é surpreendido com a notícia que Zulmira, após ser despedida pela avó, está morrendo. Aterrado, acredita ter sido um castigo divino infligido à companheira de pecado, ainda mais que ela fora consumida pelas chamas infernais de um lampião que se desprendeu do teto e caiu sobre seu corpo.

Essa associação entre prazer e culpa, que leva Joaquim a ver a morte como punição, também atinge o adolescente Totônio, que, no conto Quando Minha Avó Morreu, vive trancado no quarto a passar brilhantina nos cabelos, faltando às aulas para nadar no rio com companheiros vadios ou furtando moedinhas para comprar cigarros. Impressiona a economia de recursos e adjetivos nesses relatos que, autobiográficos ou não, são obras-primas.

Num exercício visionário, o autor parece ver a si mesmo entre quatro círios "tremeluzindo à brisa" no conto O Príncipe dos Prosadores. Nele, um amigo do morto o vê como uma promessa literária cujas "exigências da atividade profissional o tinham desviado da literatura", mencionando as qualidades do escritor malogrado - entre elas a concisão, considerada a principal por todos os que leram o autor. Ele poderia ter escrito um belo romance com O Nortista, conto que encerra o livro e parecia destinado a ser um estudo sobre as diferenças culturais entre Norte e Sul do Brasil. Uma coisa é certa: a história de Hermógenes, o paraense que faz fortuna em Santa Catarina, fica tuberculoso e contrata um médico como acompanhante, teria rendido um grande romance.

Esse conto derradeiro não trata apenas da relação conturbada entre um médico culto que serve de criado a um patrão nortista que julga inferior. Trata especialmente das relações interclassistas no Brasil e do preconceito que ainda divide o País em cores e sotaques. Rodrigo M. F. de Andrade decidiu parar por aí. Preferiu preservar nossos bens patrimoniais - e esquecer o mal histórico.

 

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