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Ficção científica ou não ficção?

A necessidade de distrair a mente, viajar por outros tempos e espaços, conhecer outras vidas, coisas que fazemos de diversas maneiras no dia a dia, encontrou nos livros sua maior possibilidade nos últimos meses

Daniel Martins, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

27 de maio de 2021 | 03h00

Já contei aqui que redescobri a força dos romances durante essa pandemia. Fazendo um levantamento de minhas leituras nos últimos anos – sim, eu sou daqueles que anotam os livros que leem, registrando data, minha opinião, comentários –, a proporção entre ficção e não ficção já era meio equilibrada. O que percebi, então, foi que as histórias não ganharam tanto volume do meu tempo, mas ganharam importância. A necessidade de distrair a mente, viajar por outros tempos e espaços, conhecer outras vidas, coisas que fazemos de diversas maneiras no dia a dia, encontrou nos livros sua maior possibilidade nos últimos meses.

Tenho apreço especial pela ficção científica. Não por ser um nerd convicto. Ok, não apenas por ser nerd – hoje em dia diríamos geek –, mas por uma característica que percebo cada vez mais nesse gênero: a facilidade com que refletimos sobre nós mesmos quando fingimos falar dos outros.

A técnica é velha conhecida dos psicólogos, em seus vários testes projetivos: peça para uma criança desenhar uma pessoa, ou mostre uma cena para um paciente e diga que conte uma história. Assim distraídos, achando que estamos falando de personagens fictícios, colocamos nos desenhos ou histórias muito de nossos conteúdos, revelando mais do que faríamos voluntariamente. Claro que estes testes não são objetivos como um exame oftalmológico, porque quem os interpreta também coloca, inevitavelmente, seus conteúdos na leitura. O que só reforça meu ponto: quando achamos que estamos falando dos outros acabamos falando de nós, seja como autores ou como leitores.

Acabei de ler Floresta É o Nome do Mundo, da Ursula K. Le Guin, lançado recentemente no Brasil pela editora Morro Branco. Na história, os seres humanos são colonizadores de um planeta chamado Athshe, habitado por criaturas humanoides aparentadas conosco. Pequenos e integrados à floresta, eles se tornam presas fáceis para o destacamento militar enviado a Athshe para extrair madeira. Os colonizadores escravizam os athsheanos e cometem todo tipo de violência em nome dos interesses da Terra. Finalmente os nativos reagem, esgueirando-se pela selva, levando a uma escalada de violência jamais imaginada pelos cientistas que estudaram seu comportamento e sua cultura.

Tal reação serve de alerta para a administração colonial da Terra, que resolve interromper a exploração do planeta, mas alguns exploradores se revoltam, justificando a violência contra essa espécie que não consideram humana e contra essa floresta que não consideram viva. “Eles estavam todos loucos, brincando ainda de serem soldados, batendo em retirada da realidade. Na verdade, havia muito poucos homens que podiam encarar a realidade quando as coisas ficavam difíceis”, descreve Le Guin.

Como no fundo estamos sempre falando de nós, é impossível não enxergar na história um paralelo com a experiência dos EUA no Vietnã, tendo sido escrito na década de 1970 por uma americana. Mas lido nos anos 2020 por um brasileiro, é impossível não pensar em nosso descalabro ambiental, diante do qual alguns ainda insistem em brincar de ser soldados, batendo em retirada da realidade.

É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’ 

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