Ficarei na trincheira até o fim

Isabel Allende reúne as melhores cenas de amor de suas obras em livro que será lançado em breve

ANA MENDOZA , EFE / MADRI, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h09

A escritora chilena Isabel Allende, que fez 70 anos no dia 2 de agosto, está comemorando a data com uma antologia que reúne as melhores cenas de amor dos seus romances e contos selecionadas por ela mesma. Segundo ela, mesmo na sua idade o erotismo "continua sendo fonte de enorme alegria" e garante que continua lutando pelas coisas em que acredita. "Vou seguir nas trincheiras, com muita honra, até que eu morra", afirmou Isabel em entrevista à Agência EFE, quando anunciou o lançamento de Amor na América Latina para as próximas semanas.

Na obra, editada pela Praça & Janés e já à venda na Espanha, a autora fala do feminismo, causa que defende desde os 5 anos, segundo contou sua mãe - "antes mesmo que o termo chegasse ao Chile". "Fui rebelde sempre e desde muito cedo essa rebeldia foi contra a autoridade masculina: avô, padrasto, padres, médicos, policial, etc." Mas Isabel também conta em Amor como a escrita foi vital para ela. "É onde posso viver todas as aventuras que na vida real não poderia."

A ideia inicial do livro partiu de seu editor e logo ela ficou entusiasmada com o projeto. Para alguns trechos, elas se inspirou nas próprias experiências amorosas ou nas de conhecidos. "Passei minha vida apaixonada, não me recordo de uma época em que não estivesse amando, mas, mesmo assim, o amor é mais fácil na literatura", ressalta.

No prefácio, a autora de A Casa dos Espíritos recorda o desabrochar da sexualidade quando era menina e algumas experiências amorosas que viveu. "O melhor afrodisíaco é o riso", garante. Mas na obra há também um episódio traumático ocorrido quando ela tinha 7 anos e estava prestes a receber a primeira comunhão. O padre perguntou se a escritora tocava "o corpo com as mãos" e ela respondeu: "Todos os dias". "Essa é uma ofensa gravíssima aos olhos de Deus, a pureza é a maior virtude de uma menina", disse o sacerdote a uma assustada criança que não podia imaginar como iria lavar o rosto ou escovar os dentes sem tocar o corpo com as mãos. Anos mais, o incidente foi usado em um capítulo de Eva Luna. "Nada se perde, tudo é possível ser reciclado na literatura."

Isabel Allende também lembra de quando descobriu que era uma "criatura sensual". Isso foi aos 33 anos e já casada com Miguel Frias, seu primeiro marido e pai de seus filhos, Paula e Nicolás. Após o divórcio, em 1987, conheceu seu segundo marido, William Gordon, um advogado americano. "Estou casada com meu marido e melhor amigo. Estamos juntos há 25 anos, nos conhecemos, nos ajudamos e nos perdoamos. Sem Willie, não sei como me comportaria em matéria de erotismo", ressalta a autora de Afrodite.

Ganhadora no Chile do Prêmio Nacional de Literatura 2010 e, em 2012, na Dinamarca, do Hans Christian Andersen, Isabel afirma que a sexualidade, hoje em dia, é cada vez mais exagerada. "Nos tempos do meu avô, bastava vislumbrar a panturrilha de uma mulher para provocar paixões. Agora, nada fica na imaginação, não há mistério. Isso tira o sabor da sexualidade, mas é muito melhor assim, pelo menos para as mulheres, porque como seria viver entre fundamentalistas?"

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