Fica, Nega

Imaginei o vestido que a Má teria usado no meu casamento. Era verde. Um verde só dela

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

29 Outubro 2017 | 03h00

Quando eu ouvia falar da morte, antes de conhecê-la de perto, imaginava que a única solução para continuar vivendo depois de perder alguém era o esquecimento. Enterrar a pessoa junto ao seu corpo, soterrar as memórias e colocar um dolorido e necessário ponto final. Para mim, essa era a única hipótese. Porque seria cruel demais continuar vivendo o amor de uma pessoa morta.

Mas não. Com o tempo e com a miséria que meus 29 anos já me permitiram aprender, descobri que não. Descobri, desde que a Má, minha amiga, minha irmã, morreu aos 19, que o único jeito de seguir adiante com um sofrimento suportável é seguir com o mesmo amor de sempre, como se nada tivesse acontecido, quase como num deboche com a vida- ou com a morte, nunca entendi bem qual delas, talvez exatamente porque elas sejam uma coisa só. 

O único jeito é olhar pela janela à noite e perguntar como andam as coisas. É contar as mesmas piadas. Ouvir as mesmas músicas.

Chorar na boa, rir na boa, mesmo depois de tanto tempo e dessa ausência física tão inoportuna. E imaginar, imaginar muito, imaginar tudo, peitando cada um dos momentos estúpidos em que ela não está.

Imaginei o vestido que a Má teria usado no meu casamento. Era verde. Um verde nem bandeira, nem água. Um verde só dela. Cabelos soltos, longos, sem complicação nenhuma. A bolsa dela teria uma concha grande aplicada. Quando o vento batesse, pareceria uma sereia terrestre, com cabelos, conchas e aquele verde todo voando. Na verdade, eu só não vi o vestido porque estava muito distraída, porque ela estava lá, no lugar vazio que eu pedi para deixarem na fileira dos padrinhos.

Imagino em qual jornal ela trabalharia. Estávamos prestando vestibular naquele ano. Eu para direito, ela para jornalismo. Eu tinha cabelo, ela não. Eu tinha medo, ela não. Imagino o quanto diria que eu sou enxerida, por escrever num jornal sem nunca ter estudado jornalismo. E ela teria toda razão. Imagino o que ela acharia dos meus textos. Imagino como seria bom poder pedir a opinião dela antes de mandar esse conteúdo tão cheio de letras, vírgulas e dúvidas.

Imagino se ela teria se casado. Acho que não. Mas moraria junto com um namorado barbudo. Barba loira, magricelo, um pouco parecido com o Salsicha do Scooby Doo. Ele poderia ser jornalista também. Ou diagramador, não sei. Eles andariam de bicicleta no final de semana e usariam all star. Ah, eles gostariam tanto um do outro! Seriam daqueles casais que ouve música deitado no sofá no fim da tarde, sem fazer mais nada. Massagem no pé, no máximo, ao lado de uma samambaia farta.

Imagino que ela teria achado minha festa de casamento um exagero. “Mas se você está feliz, é o que importa.” Também imagino que ela iria gostar muito desse homem com quem me casei. Os dois têm o riso meio frouxo e um sorriso em stand by. Eu diria pra ela que seria bom se ela e o Salsicha fizessem pelo menos um contrato de união estável. Ela me diria para parar de encher.

Há coisas que não imagino. Coisas que tenho certeza. Ela continuaria sendo uma irmã e uma filha cada vez mais espetacular. Um pouco impaciente, mas aquela impaciência que a gente só tem com quem ama, por desejar o que há de melhor sem nenhuma demora. Tenho certeza de que nunca negaria um bom pedaço de lasanha e de que continuaria detestando shoppings centers.

Eu nunca seria capaz de sufocá-la no meu peito. Seria injusto demais. Comigo, com ela, com a vida e até com a morte. Dor de verdade seria tê-la abandonado em 2007 em vez de trazê-la comigo para caminhar nos fins de tarde. Imaginar seu futuro talvez seja uma forma imatura de negar sua morte. Não sei. Mas esquecê-la seria morrer junto com ela. E isso seria inadmissível. Ela partiu lutando para ficar. Então fica, Nega. Fica comigo como você sempre ficou.

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