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Fibra de campeão

Fazer tudo com paixão é a receita de Campanella, na vida e em sua bela animação

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2013 | 02h23

Juan José Campanella gosta de dizer que pertence a uma geração que teve o privilégio de descobrir o cinema em salas de rua, os velhos 'cines de barrios'. O cinema era uma atividade prazerosa, um lazer para se curtir em família, aos domingos. O 'click', o desejo de virar cineasta, ocorreu quando ele viu um filme que o marcou muito - All That Jazz, O Show Deve Continuar, de Bob Fosse, que dividiu com Kagemusha - A Sombra do Samurai, de Akira Kurosawa, a Palma de Ouro de 1980.

Campanella realizou seu sonho. Virou diretor, e fez até muitos episódios para séries de TV nos EUA. Mas sua grande obra, seu cinema autoral, ele o realiza em casa, na Argentina. Ganhou o Oscar com O Segredo de Seus Olhos, em 2010. E sonha com outro Oscar, o de animação, em 2015, justamente com Metegol, que será lançado no Brasil somente como Um Time Show de Bola.

Luis Bolognesi pode não ter sido o primeiro, mas já mostrou que há uma animação adulta e que pode ser atraente para a Academia de Hollywood. História de Amor e Fúria surgiu na imprensa numa lista de títulos possíveis de ser indicados para o Oscar da categoria no ano que vem. Numa entrevista por telefone e, depois, durante o Festival do Rio, Campanella já disse que as animações feitas para crianças nem sempre conseguem interessar - ou emocionar - os adultos com a mesma intensidade, mas que, no caso de Um Time Show de Bola, ele sentia que havia feito o chamado 'crossover'.

"Adultos e crianças entram na mesma sintonia e, na meia hora final, a sensação é de que os cinemas viram imensos estádios de futebol." Foi assim que, rapidamente, Metegol (título original) entrou para a lista das maiores bilheterias do cinema argentino, a top five (cinco mais) que Campanella já integrava com seu thriller vencedor do Oscar, interpretado por Ricardo Darín. A diferença é que O Segredo de Seus Olhos só deslanchou nas bilheterias depois da indicação para (e a vitória n)o Oscar e Metegol achou seu caminho na lista de forma fulgurante, logo depois da estreia.

O Oscar ainda é uma aspiração distante. Vai depender, como diz o diretor, de múltiplos fatores e o menor deles não é a dublagem da versão que será exibida nos EUA. "A dublagem é muito importante em qualquer animação", ele reflete. Considerando-se que Ricardo Darín tem sido o parceiro - cúmplice? - privilegiado de Campanella, chega a ser surpreendente que o diretor tenha recorrido a Alfonso Herrera, o Poncho Herrera, para dar voz a Capí. O capitão da equipe de pebolim é o verdadeiro protagonista da história, por mais que o filme conte a rivalidade de dois garotos, e de como um deles termina tendo de enfrentar o outro, num jogo decisivo - de vida ou morte - e de cujo resultado vai depender a existência da própria cidade em que nasceu.

'Poncho' é um ator mexicano que se tornou internacionalmente conhecido como protagonista da novela Rebelde. Campanella não nega que Capí é o personagem de quem se sente mais próximo, mas adverte: "Pode ter a ver com a função que exerço. Ele tem de organizar os companheiros em campo, eu comando o grupo na filmagem. Em ambos os casos, o filme ou a partida de futebol, trata-se de um esforço coletivo para se chegar ao gol, o objetivo. E ambos têm a mesma duração aproximada - de 1h30 a duas horas." Embora a equipe que fez Um Time Show de Bola seja predominantemente argentina, possui integrantes do Brasil, do México e da Espanha, parceira da produção. "Para mim, o aspecto mais importante, decisivo até, de Metegol é mostrar que a América Latina consegue produzir animações de ponta, com uma qualidade técnica e emocional que nada deve às melhores produções da Pixar e da DreamWorks."

Em 34 anos de carreira, iniciada com o curta Prioridade Nacional, em 1979, o portenho (nasceu em Buenos Aires) Campanella tornou-se um respeitado profissional do audiovisual, e não apenas em seu país. Formado pela New York University Film School, ele começou a dirigir para séries de TV norte-americana antes de realizar o primeiro longa, O Mesmo Amor, a Mesma Chuva, em 1999. Entre as séries que dirigiu, estão episódios de House, Law & Order: Special Victims Unit e Halt & Catch Fire. Além do Oscar de filme estrangeiro, ele ganhou dois Emmys, o Oscar da TV. Uma cena de Um Time Show de Bola é emblemática - muitas cenas, na verdade, mas há esta em que os personagens dizem que é preciso fazer as coisas com paixão.

Sem paixão, não há solução, diz o próprio Campanella, que se considera um privilegiado, por fazer o que gosta (e ainda ganhar reconhecimento por isso). Ele assume suas referências - de O Soldadinho de Chumbo a Toy Story, mas surpreende ao revelar que suas animações preferidas são A Pequena Sereia e Aladdin. Mas a grande dívida é com o mestre John Ford. A grandeza dos derrotados. Para saber como isso se dá em Um Time Show de Bola, não perca o filme, que estreia sexta, dia 29, num número expressivo de salas (entre 300 e 400), somente com cópias dubladas.

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