Fiado só para maiores de 90 anos, com os pais

Há décadas, os amigos mais próximos insistem que devo, preciso, o quanto antes, lançar uma coletânea das mais minhas melhores crônicas. Se você participar de um almoço na minha casa, em algum momento o assunto vai surgir. Normalmente depois da segunda dose daquela cachacinha que alguém ? Reinaldo ou Tota ou Marcão ou Dênio ? trouxe de Minas Gerais. E assim é há muito tempo, graças a Deus.

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2010 | 00h00

A novidade é que está saindo o livro de crônicas. Mesmo. De verdade. Acredite se quiser. Talvez até no mês que vem. Mario Prata já entregou o prefácio. As crônicas estão escolhidas. A ilustração da capa está pronta ? feita pela minha mulher Luli. E o título está quase certo. Entre as possibilidades descartadas está O Brasil para Principiantes. Se você não sabe, esta frase é uma citação de outra, ótima, de Tom Jobim, que teria dito o contrário: "O Brasil não é para principiantes."

Pensei já bastante na frase do ilustre compositor. É boa, sem dúvida, mas qual é seu significado exato? Se é que tem exatidão nela. Existem países mais fáceis de se entender do que outros? O meu saudoso guru, o grande historiador Richard Morse, diria que sim. Ele também achava o Brasil complexo ? e os Estados Unidos fáceis de se compreender, diga-se.

Mas a verdade é que não sou nenhum principiante. Embora gringo, ou "alemão", como dizem alguns, vivo no País há 25 anos. Já fiz muitas experiências com a cultura local e analisei os resultados com o devido cuidado.

Ao fazer a última leitura das crônicas do meu livro reencontrei uma, de 1999, em que reclamo da falta de troco no País. Não é nada importante, reconheço, mas é de difícil compreensão para um estrangeiro. Quase sempre ao pagar em dinheiro ouço a pergunta: "O senhor não teria mais trocado?", seja qual for a quantia. E, no ônibus, se tiver sem crédito no meu Bilhete Único, muitas vezes sou obrigado a andar em pé ao lado do cobrador durante diversas paradas, ansioso ao torcer para algum passageiro fornecer o dinheiro trocado que falta na sua gavetinha.

Tudo isso para dizer que, depois de todos esses anos tentando entender o problema, encontrei um livro que explica a crônica falta de moeda circulante no País. Chama-se História do Brasil com Empreendedores (Mameluco) e foi escrito pelo meu amigo Jorge Caldeira.

Reconheço que já dediquei uma crônica inteira à obra. E devo frisar que o objetivo do Cafu, como é mais conhecido, era reinterpretar a história colonial do País ? e não apenas a falta de troco de alguns estabelecimentos comerciais hoje.

Mas sua tese, ao colocar de cabeça para baixo a interpretação mais conhecida do período colonial, aquela que você deve ter aprendido na escola, ajuda a entender algumas peculiaridades do cotidiano nosso, entre elas, a falta de troco.

Para ser sucinto, Cafu mostra que o desenvolvimento do País durante seus primeiros séculos se deu, também, à margem da relação oficial entre metrópole (Portugal) e colônia (Brasil). Houve uma expansão vigorosa nos séculos 16, 17 e 18 do capitalismo baseado no empreendedorismo, no crédito informal ? o fiado anotado no livro ? e a troca de mercadorias, o escambo. Ou seja, um capitalismo em franca expansão, mas sem dinheiro, sem moeda circulante.

Isso ajuda a explicar diversas peculiaridades do Brasil de hoje. A falta de troco é apenas uma delas. A importância das relações pessoais é outra: é preciso ser amigo de quem lhe deve ou empresta dinheiro. Sem falar de um detalhe da cultura brasileira que sempre me intrigou: a agressividade das placas nos bares, que reiteram a impossibilidade do fiado ? "só no dia de São Nunca", "Fiado só para maiores de 90 anos acompanhados dos pais", "Promoção! Peça fiado e ganhe um não" ? quando, na verdade, ele existe (para os conhecidos). Ou seja, para os amigos tudo, para os inimigos a moeda circulante, para adaptar uma frase de Roberto DaMatta.

Enfim, em História do Brasil com Empreendedores, Cafu faz sentido de sutilezas culturais que em 1999 eu ainda não entendia.

Recomendo o livro vivamente. É uma das obras mais importantes das ciências sociais no Brasil do século 21.

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