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Fetichista incurável

Nada contra a digitalização. Mas há quem prefira o corpo a corpo com tesouros em papel

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2016 | 03h00

Um amigo me diz: é fetiche. Talvez seja mesmo. Fetichismo assumido, então, esse meu apego a velhos papéis.

Tempo virá, se é que já não veio, em que, no silêncio eclesial dos arquivos, praticamente já não haverá quem calce luvas de borracha, e até vista máscara para proteger-se dos ácaros e da poeira ancestral com que tais velharias, acomodadas em pastas, costumam reagir ao assédio de fetichistas que nem eu, essa gente intrometida que, na contramão das modernidades tecnológicas, insiste no corpo a corpo com aquilo que já foi digitalizado.

Soa mesmo a anacronismo, eu sei, com certeza é. Na tela do monitor, com a possibilidade de acionar um zoom para melhor decifrar garranchos num manuscrito, tudo fica mais fácil, não há dúvida. Champollion, quem sabe, teria preferido os recursos de um computador na decifração daqueles hieróglifos. Mas fazer o que, quando se é, no departamento papéis, um irremediável fetichista?

Cada vez mais reiterativo, acho que já contei da emoção extraliterária que experimentei, anos atrás, ao manusear cartas trocadas por Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes, um no Rio de Janeiro, o outro em Paris, por ocasião da morte do amigo comum Jayme Ovalle.

Uma digitalização, que ainda não havia, teria permitido conhecer a caligrafia, caprichada ou garranchosa, de um e de outro, ou a correção e os desastres de sua datilografia. A economia ou o esbanjamento na administração do espaço em branco. A cor da tinta que abastecia canetas provavelmente Parker, num tempo, meados da década de 1950, anterior à disseminação das esferográficas. Para mim, no entanto, ficaria faltando conhecer na polpa dos dedos a textura do papel, se fino ou espesso, se ordinário ou de linho, e, erguido contra a luz, se portador ou não de marca d’água. Pode ser que eu, sem crença religiosa, nesse particular esteja irmanado com os beatos sequiosos por tocar uma relíquia de santo.

Não vejo outro nome, relíquias, para o que tenho tido nas mãos – reverentes, além de enluvadas – nestes dias em que, no Rio de Janeiro, vou escarafunchando num acervo de literatura exemplarmente bem cuidado. O zelo de quem organizou e administra esse tesouro foi facilitado, percebe-se, pelo esmero do escritor que o sedimentou ao longo de muitas décadas.

Na excitação que precede achados felizes, vou desvendando o conteúdo de caixas trazidas uma a uma, repositórios de cartas, documentos, comprovantes, anotações, cadernos, fotografias, desenhos – mas também daquilo que não se esperava encontrar no acervo de um poeta. Um chumaço de cabelos femininos bem mais do que centenário. Atada a uma fita negra ainda em bom estado, a diminuta chave com que se fechou o caixão da avó do escritor quando ele andava, ainda vacilante, pelos 2 anos de idade. Morbidez? Informação. Eventualmente, epifanias.

Esgotadas as caixas, farei questão de ver também a biblioteca onde o dono manuseou pela última vez um livro há quase 30 anos. Assim como as cartas e documentos, espero que seja possível folhear ao acaso uns tantos volumes, na busca lotérica por sinais que seu dono tenha deixado ou esquecido entre suas páginas. Cartas, bilhetes, fotografias, quem sabe um recibo do técnico que veio fazer a manutenção da geladeira. Ou, reveladores de leitura muito particular, traços que seu lápis ou caneta tenha feito nas margens e entrelinhas.

Aquilo, por exemplo, que lhe pareceu importante destacar na leitura de Anatole France, um de seus ídolos na primeira juventude. Ou, da mesma fase, Alvaro Moreyra, com suas então apreciadas reticências de simbolista, ou melhor, symbolista. Ler, não Anatole France ou Alvaro Moreyra, mas a leitura que deles fez um jovem aspirante à literatura. Vários degraus abaixo, o mesmo que fiz eu ao sublinhar em velhos exemplares, que ainda conservo, de Drummond, de F. Scott Fitzgerald, do Fernando Sabino de O Encontro Marcado, lido e relido desde os 12 anos, e, desde os 15, O Domingo Azul do Mar, de Paulo Mendes Campos.

Quando, duas décadas atrás, eu me abastecia para escrever O Santo Sujo, biografia de Jayme Ovalle, sua viúva, a escritora americana Virginia Peckham, pôs em minhas mãos os 3 volumes, encadernados em percalina preta, de O Novo Testamento de Nosso Senhor Jesus Cristo, castigada edição portuguesa que pertenceu a seu marido, e em cujas páginas ele registrou impressões – “Isto”, “bom” – com sua caligrafia ríspida e a sem-cerimônia de quem estivesse lendo um livro qualquer, não um livro santo. Leitura diária de quem lia pouco mais do que os jornais, contou Virginia enquanto me servia um chá na sua casa em Los Gatos, Califórnia, a mesma construção de pedra, num alto de morro, o tempo todo visitada por esquilos, onde na última década do século 19 Jack London escreveu The Call of the Wild.

Pegadas de Ovalle surpreendidas no ninho de um romance de Jack London – que mais poderia querer este incurável fetichista?

 

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