Festival música nova, só no ano que vem

Sem apoio, Gilberto Mendes adia 50ª edição do evento

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

A tribo contemporânea vive momentos agitados em São Paulo. Primeiro as boas notícias. Apesar dos cortes de verbas que quase a mataram no primeiro semestre, a Camerata Aberta ressurge: entre setembro e dezembro, finca-se institucionalmente de modo a inviabilizar tentativas de asfixiá-la. Nestas semanas, o grupo grava seu primeiro CD, para o Selo SESC, com regência de Guillaume Bourgogne. Seus músicos o levarão como cartão de visitas em concertos em outubro em Nova York (18), Bruxelas (21 e 23) e Amsterdã (23). O repertório gira em torno do concerto de anteontem no SESC Santana, com obras dos últimos 25 anos: Spiri (Franco Donatoni), Diastema (Oliver Schneller), Window into the Pond (Silvio Ferraz), Sobre Paranambucae (Sergio Kafejian), Araés (Roberto Victorio), Quando se Muda a P aisagem... (Rodrigo Lima) e Águas Marinhas, de Miguel Azguime.

Agora a má notícia: a 50ª edição do Festival Música Nova de Santos, idealizado em 1961 por Gilberto Mendes, não se realiza este ano "por absoluto desinteresse da prefeitura e da secretaria de cultura da cidade". Mas, rapidíssimo no gatilho, Gilberto já anuncia para 2012 uma edição inteiramente reformulada. E em outra cidade: "A partir de 2012, sua sede passa a ser Ribeirão Preto, iniciativa minha, e será gerido pelo Departamento de Musica da USP em Ribeirão. É um velho sonho meu essa ideia de um festival nos moldes do de Campos do Jordão, com cursos e concertos".

Ao mesmo tempo em que desautoriza expressamente qualquer iniciativa visando a realização de um festival de música nova este ano vinculado a seu nome, Gilberto festeja a mudança: "O festival retomará suas atividades em novo estilo, comemorando seus 50 anos de existência" - e, acrescento, os 90 anos de seu idealizador.

O compositor santista anda tão chateado com sua cidade, Santos, que também insiste em esclarecer que o festival "nasceu de um movimento de São Paulo, do grupo musica nova, que organizara um concerto em 1961 no Teatro Cultura Artística, dentro da V Bienal de São Paulo". Aquele concerto reuniu pela primeira vez os quatro compositores do grupo, Gilberto, Willy Correa de Oliveira, Rogério Duprat e Damiano Cozzella. No ano seguinte 1962, Gilberto repetiu o mesmo concerto em Santos, dando origem ao Festival Musica Nova. "Você vê", conta ao Estado, "o festival teve desde o inicio forte colaboração do Departamento de Musica da ECA-USP. Por isso, é histórico que retome essa ligação de maneira oficial e definitiva. Santos, embora seja minha cidade natal, não tomou conhecimento da minha ideia. O Festival, assim, decide viajar".

"Santos não é uma cidade qualquer do interior. O Brasil começou por aqui. A cidade tem grande potencial, que não sabe explorar. É a terra do compositor Almeida Prado, de Plínio Marcos, Cacilda Becker, Miroel Silveira e, por que não?, de Neymar, Pelé... dos meninos da vila! Pagu fez a estreia mundial de Fando y Liz, de Arrabal, em Santos!!! Mas o Festival não poderia continuar nas mãos de poucas pessoas não profissionais. Precisava passar para as mãos do Estado ou Prefeitura, como Campos do Jordão. Agora estará na USP: finalmente, não vai morrer."

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