Festival mostrou uma nova cara para a china atual

No drama Chongqing Blues, Wang Xiaoshuai retrata uma família desestruturada, para discutir a situação do seu país

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2010 | 00h00

Terá sido simplesmente para honrar a necessidade de participação de concorrentes franceses? Afinal, a França é a dona da casa e o Festival de Cannes tem de prestigiar a produção nacional. Por mais que isso seja compreensível, é um enigma saber por que o diretor artístico Thierry Frémaux selecionou Tournée, de Mathieu Amalric, para abrir a competição - após o Robin Hood de Ridley Scott e Russell Crowe, que passou fora de concurso. Menos mal que para um Tournée decepcionante surgiu na sequência o chinês Chongqing Blues, de Wang Xiaoshuai. O diretor de Bicicletas de Pequim, que venceu o Urso de Prata em Berlim, dá novo testemunho da China em processo de transformação.

Mathieu Amalric lembrou sua primeira montée dês mardches em Cannes, como ator de Arnaud Desplechin (em Comment Je Me Suis Dispute Ma Vie Sexuelle). Mais do que a subida da escadaria, o tapete vermelho, ele guarda como emoção inesquecível da Croisette a descida. O filme de Desplechin estava terminando, a equipe levantou-se, ele saiu e acendeu um cigarro no alto da escadaria do palais. Dali ouviu os aplausos. Mathieu Amalric não é James Cameron, mas naquele momento se sentiu o rei do mundo.

Ator conhecido - O Escafandro e a Borboleta e Quantum of Solace, entre muitos títulos que poderiam ser citados - e diretor um tanto bissexto, ele queria adaptar um livro de Colette, L"Envers Du Music Hall, mas não achava o tom da escritora francesa para falar sobre o "inverso" do burlesco. Colette escreveu o livro a partir de suas experiências. Amalric só descobriu o grupo que queria fazer ao descobrir, nos EUA, um grupo de artistas de strip-tease. Ele próprio faz o empresário que as leva numa turnê pela França.

O herói é um homem em crise, que dinamitou suas pontes antes de voltar ao país. Até os que tentam ajudá-lo voltam-se contra ele. E existem os filhos. As strippers são coroas, algumas com quilos a mais. Parecem personagens de Federico Fellini num filme de John Cassavetes. Amalric quer ser intenso e dá a impressão de improvisar. Não é que Tournée seja ruim. Se fosse, nos obrigaria a tomar partido. É um filme um tanto anódino, que incita a indiferença.

Justamente depois de ver o filme de Amalric foi impactante abrir o jornal Libération e descobrir o anúncio que Emmanuelle Béart e Michael Cohen fizeram publicar em protesto contra Thierry Frémaux, que teria considerado o filme da dupla, Cãs Commence par La Fin, polêmico demais para a Croisette em 2010. Polêmica, aliás, é o que não está faltando à seleção francesa. O filme de Olivier Assayas, Carlos, fora de competição, é na verdade um telefilme já exibido na TV. O de Jean Luc Godard, Filme Socialisme, em Um Certain Regard, também é telefilme. E Nicolas Sarkozy, por meio de seu ministro da Cultura, tem bradado contra a visão negativa que Rachid Bouchareb projeta da França em Hors-la-loi, que revolve antigas feridas da Guerra da Argélia.

Densidade. Qualquer dessas polêmicas parece melhor do que a indiferença suscitada por Tournée. Em comparação, o filme chinês de Wang Xiaoshuai impressiona pela densidade. Um pai, separado do filho há dez anos, tenta descobrir o que ocorreu com o garoto, morto pela polícia num confuso episódio de tomada de refém, numa loja de departamentos. O pai é capitão de um navio, passa longos períodos no mar. O filme trata da culpa do pai e o homem dividido, entre seu presente, a nova família, e o passado, a família desestruturada, é a cara da nova China. A ex-mulher, o amigo do filho, a ex-namorada, o policial que matou, todos têm seus pontos de vista, e todos, no fundo, lamentam o que não fizeram para salvar o jovem. Chongqing Blues é como Juventude Transviada, de Nicholas Ray, do ângulo do pai de James Dean. O ator, Wang Xhueqi, é maravilhoso. A competição acaba de começar. / L.C.M.

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