Festival leva arte e cidadania ao sertão do Piauí

Acaba de se encerrar o 1.º Interartes, o Festival Internacional da Serra da Capivara. Dito assim, pode parecer comum, apenas um bom evento a mais que nasce neste Brasil que parece estar tomando consciência do seu tamanho cultural. Todavia, trata-se de algo inteiramente singular e de tanta importância que até se torna difícil comunicá-la. Porque conhecer o local, neste caso, representa o tipo de diferença que faz toda a diferença. O Brasil ainda não celebra como merece Niéde Guidon, a antropóloga que fez nascer e faz viver o Parque Nacional da Serra da Capivara, nem a sua equipe de guerreiras que escreve trabalho usando as letras da palavra amor.O Interartes aconteceu em um dos mais impressionantes sítios da região, a Pedra Furada, cuja força o impõe como parte constitutiva e não como cenário do teatro ao ar livre que a obsessão de sua inventora e diretora artística, Lina do Carmo, produziu. Como que se integrando organicamente ao ambiente, que é o das pinturas rupestres, o 1.º Interartes também inscreveu uma nova camada de dança sobre as danças ancestrais que o lugar carrega. Em cada um dos cinco dias da sua progamação, mais de 1.300 pessoas lotaram o anfiteatro. Ingressos esgotados, gente em pé, um público com alta porcentagem de crianças e jovens, que surpreendia pela educação com que sabia receber cada uma das obras. A sensação já estava no ar, mas na noite em que Lina do Carmo veio anunciar Henri Torgue, o compositor francês queridinho de muitos coreógrafos contemporâneos, trazido para tocar as suas composições num piano de cauda instalado naquele palco, não era mais Lina e sim a imagem do Aguirre de Herzog que se via lá.A programação reuniu dança (Alaya Dança, de Brasília; Verve Cia de Dança, de Campo Mourão; o Balé Folclórico de Teresina; Mark Sieczkarek Company, de Essen, Alemanha, e a própria Lina do Carmo), mímica (Les Bubbs), música (Coral dos Vaqueiros, a sanfoneira Sebastiana, Henry Torgue) e cinema (Cipriano, o primeiro longa produzido no Piauí, de Douglas Machado). Fez mais. De fato, cumpriu o vaticínio que Niède Guidon registrou no texto do programa: "Este Festival, que se repetirá todos os anos, oferece a todos, jovens e adultos, moradores da região e forasteiros, a oportunidade de voltar ao mundo que aqui existiu, durante toda a pré-história. O mundo que foi destruído pela força bruta e pela ignorância, mas que agora volta, nos braços dos artistas, das crianças de todos aqueles que protegem o Parque Nacional, sua paisagem, sua vida."Foram dias de muitos ineditismos, entre os quais também o de Maya Velloso, jornalista responsável pela transmissão ao vivo de todos os espetáculos, numa cobertura integral, para todo o Estado. Uma ação louvável da TV Meio-Norte, fundamental para que o Piauí assuma o evento como seu e lute pela sua continuidade. Além dos espetáculos, foi realizada a conferência Arte & Ciência e ainda um Fórum de Debates sobre Direito à Cidadania sem Discriminação de Classe Social, além de workshops das crianças do projeto com os artistas convidados. Ou seja, lá, na distante Serra da Capivara, plantou-se algo com a força e a densidade necessárias para promover a sua sobrevivência. Conhecemos muito mal a nossa caatinga, região à qual precisamos começar a associar vida e transformação, aliás, suas próprias características. Não se deixe enganar pelo seco daqueles galhos. Porque basta uma chuvinha para que tudo floresça. Com o 1.º Interartes, começou a chover no Piauí.

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