Festival faz 30 anos e espalha pela cidade quase 60 mostras

Esta edição de 30 anos do Mois de la Photo, maior festival bienal da fotografia, está espalhada em um circuito que inclui 58 mostras em galerias, museus e institutos na cidade-luz. O tema deste ano, Paris Collectionne, foi dedicado à memória de Irving Penn, amigo de Jean-Luc Monterosso (ver entrevista ao lado), fundador e curador do evento, que ofereceu o acervo da MEP (Maison Europeénne de la Photographie) como ponto de partida dos diálogos imagéticos travados com as exposições das instituições convidadas e a extensa coleção do museu situado no Marais que está polemizando com a mostra Autour de l"Extrême.

Cynthia Garcia, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2010 | 00h00

Na Place des Voges, a Maison Victor Hugo exibe retratos de grandes nomes da literatura a partir de 1850, pouco mais de duas décadas depois da invenção da fotografia em 1826. "Victor Hugo era fascinado pela luz e por fotografia, era amigo da fotógrafa inglesa Julia Margaret Cameron", explica Monterosso sobre essa mostra que tem Alfred Tennyson retratado por Cameron, William Burroughs por Mapplethorpe, George Sand por Nadar e Jorge Luis Borges pela lente do brasileiro Carlos Freire, que vive em Paris.

A Fundação Henri Cartier-Bresson exibe uma individual do americano Henry Callahan (1912-1999), com tiragens reveladas pelo próprio autor de seus registros oníricos em Detroit, Chicago e Cape Cod. Com um preto e branco, diferente do de Callahan, Michael Ackerman, na exposição solo Half Life na badalada Galeria Vu, revela imagens de inquietude e obsessão com sensualidade e violência. Na Galeria Polka, do clã Genestar que edita revista do mesmo nome, a mostra Klein d"Oeil brinca com a expressão clin d"oeil, que significa dica, e o nome do homenageado, William Klein, um talento que funde fotografia com cinema e artes plásticas. Um dos primeiros espaços em Paris com mostras especializadas, a Galeria Agathe Gaillard selecionou o retrato L"Enfant Flou (1947), de Jean-Philippe Charbonnier, considerado uma imagem mal-sucedida na época em que foi feita, hoje aclamada como um acidente do inconsciente, para criar uma coletiva em que o acaso deu uma mão nas imagens finais.

No Espaço Cultural Dinamarquês, Krass Clement, maior nome da fotografia desse país nórdico, transforma o visível em metáforas imagéticas. Uma ocasião para admirar as imagens desse premiado autor que raramente expõe. No Institut Néerlandais, a jovem holandesa Ellen Kooi exibe Out of Sight, sua primeira individual na França, composta por imagens intrigantes em clima hitchcockiano e cores saturadas. Uma das mostras mais belas e completas está no Jeu de Paume. É a retrospectiva com tiragens originais em nitrato de prata do húngaro que viveu em Paris e Nova York André Kertész (1894-1985). Kertész teve uma carreira inconstante, mal compreendida na época, como acontece com muitos visionários, agora, após 25 anos de sua morte, tem merecida homenagem.

Um dos acidentes geográficos que fascinam os franceses é o Mont Sainte-Victoire na Provence, imortalizado por Cézanne em mais de 80 telas e desenhos. O fotógrafo Jean-Christophe Ballot revela sua visão autoral desse ícone do grande hexágono na Galeria Beckel-Odille Boïcos. O Palais de la Monnaie, antigo ministério das finanças no século 18, desvenda na mostra Steidl: Quand la Photographie Devient Livre, de Robert Frank a Karl Lagerfeld, a arte da edição do livro de fotografia através do olhar irreverente de Gerhardt Steidl, considerado um "mago" das artes gráficas. É para se debruçar nas anotações dos fotógrafos durante o processo de edição de seus livros na cultuada editora Steidl que imprime mestres como David Bailey, Thomas Demand, Massimo Vitali, Chuck Close, Jim Dine, Ed Ruscha e até Karl Lagerfeld, estilista da Chanel e fotógrafo. Os dois alemães, Steidl e Lagerfeld, são sócios da Éditions 7L, com mais de 50 livros de fotografia editados.

Premiação. Dividida entre a galeria Montparnasse e o museu do mesmo nome, a retrospectiva do Prix Niépce des Gens d"Images, criado em 1955 pelo fotógrafo Jacques Henri Lartigue, é a mais antiga premiação da fotografia francesa. Nas paredes, imagens de Robert Doisneau, Jeanloup Sieff, Keiichi Tahara a Jean-Christian Bourcat, o contemplado de 2010. No boulevard Saint-Germain, a Maison de l"Amérique Latine exibe Fragmentos Latino-Americanos: 15 artistas, 9 países, 40 anos de imagens, da Coleção da Maison Européenne de la Photographie.

O Brasil está representado por Sebastião Salgado, Miguel Rio Branco, Vik Muniz, Thiago Rocha Pitta, Marcos Bonisson e Katia Maciel. Dois brasileiros estão em alta nesta edição. Além de participar em algumas mostras, Vik Muniz é o autor do cartaz do Mois de la Photo 2010. Mario Cravo Neto, que morreu ano passado, está homenageado na individual Corpo & Alma, Photographies, Installation-Sculpture, Vídeo, montada em uma das galerias mais tradicionais da oitava arte, a da marchande Esther Woerdehoff, escondida em um pátio de um antigo prédio da Rue Falguière, no 15ème. Antes, porém, certifique-se se a galeria irá abrir no horário previsto.

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