Festival em SP usa arte para discutir a pornografia

Relegada a um canto escondido da videolocadora ou da banca de revista e apreciada em passeios furtivos aos cinemas do centro da cidade ou na intimidade da tela do computador, a pornografia agora é revelada por um viés artístico na primeira edição do Pop Porn Festival, evento que começa nesta quinta-feira em São Paulo e que reúne cinema, artes plásticas, literatura, debates, performances e festas para colocar o assunto em evidência. "Acho que discutir sexo é sempre muito saudável. É uma coisa que sempre foi muito associada ao pecado, muito reprimida em várias sociedades e isso gera muita ansiedade", comenta a jornalista Suzy Capó, uma das organizadoras do evento.

IGOR GIANNASI, Agência Estado

26 de maio de 2011 | 15h00

Ex-curadora do Festival Mix Brasil, que anualmente apresenta filmes ligados à diversidade sexual, Suzy teve a ideia de fazer esse festival, que pretende não só falar sobre sexo mas mostrá-lo, após conhecer, na capital alemã, o Pornfilmfestival Berlin, evento cinematográfico que, na avaliação dela, "limpa a barra" da pornografia, gerando um impacto positivo na discussão das práticas sexuais.

"O espaço tradicional da pornografia, principalmente do audiovisual, está localizado numa indústria dentro de um contexto de consumo massivo, que está associado a discursos hegemônicos, a estrutura de poder e de opressão contra a mulher, esse festival alemão desloca a exibição dessa produção para um outro espaço, muito mais interessante", analisa Suzy.

Também com a intenção de gerar essas reflexões por aqui, a parte cinematográfica do Pop Porn Festival conta com uma seleção de curtas e longas-metragens que vão desde clássicos, passando por aqueles com estrutura tradicional do filme pornô e chegando aos exemplares mais experimentais. Um destaque é a exibição, na sexta-feira, dia 27, no Espaço Unibanco de Cinema, de "Último Tango em Paris" (1972), do cineasta italiano Bernardo Bertolucci, e estrelado por Marlon Brando e Maria Schneider (atriz morta em fevereiro, aos 58 anos). "Na década de 1970, tinha muito isso da pornografia flertando com o filme de arte e o filme de arte flertando com a pornografia", diz Suzy. Outro exemplo desse fenômeno é "O Diabo na Carne de Miss Jones" (1973), programado para o dia 2 de junho, no Cine D. José. "É um pornozão, mas que começa com um suicídio."

Novo Contexto

Para alcançar a mesma atmosfera que encontrou em Berlim, a jornalista resolveu dar uma personalidade própria à versão brasileira, incrementando o festival com outros elementos. Instalações, exposições fotográficas e do acervo de um colecionador de material erótico estarão distribuídas pelo Matilha Cultural, Gorila Café e Galeria Vermelho. Haverá também debates e um workshop com o tema "Home Made Porn Videos", além de algumas festas. A programação completa está no site do evento (www.popporn.com.br).

O artista plástico Amílcar Packer preparou uma instalação em forma de mural com publicações que "de alguma maneira recontextualizem a pornografia, o sexo e a nudez", que ficará exposto na Tijuana, anexo da Galeria Vermelho, a partir do dia 31. "Minha ideia é que ele seja um arquivo que conte com mais revistas para a edição do ano que vem", diz Packer.

Sexo e internet, pornografia, feminismo e literatura erótica serão os temas que entrarão em discussão no Pop Porn Festival. A cantora, compositora e escritora Vange Leonel vai comandar a mesa do debate "Páginas Picantes: O Ardor da Literatura Sexual", conversando com o jornalista Ubiratan Muarrek e o escritor Ismael Caneppele sobre suas obras e se existe uma literatura erótica que possa ser classificada como feminina ou masculina. "Nessa época que está um pouco careta demais, acho bastante interessante o festival", comenta Vange.

PopPorn Festival 2011 - de 26 de maio a 02 de junho. Matilha Cultural - Rua Rêgo Freitas, 542; Espaço Unibanco de Cinema - R. Augusta, 1.470 e 1.471; Cine D. José - Rua Dom José de Barros, 306; Galeria Vermelho - Rua Minas Gerais, 350; Gorila Café - Rua Doutor Melo Alves, 74. Site: www.popporn.com.br

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