Festival em Construção

Entrando na última semana, a mostra de Campos do Jordão esboça proposta nova baseada no tripé pedagogia, música contemporânea e trabalho social

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

A pianista Maria João Pires é aguardada por olhos e mãos ansiosos. Mas, pequenina e tímida, é ela quem se surpreende ao entrar e constatar a classe cheia de estudantes. Ouve a primeira aluna, Érika Ribeiro: Beethoven, sonata Op. 110. "Não pense na técnica, sinta seu corpo", aconselha. A menina recomeça: outro som. "Não costumo gostar desse efeito, mas você me convenceu, ficou bom, orgânico", admite a mestra.

"Mano, muito loco." O menino de boné, calça jeans e moletom surrado deixa empolgado a Sala São Paulo. Acabara de ouvir Partiels, de Gérard Grisey, símbolo da vanguarda francesa, que se encerra com os músicos se levantando, limpando os instrumentos, sacudindo as partituras. "Doido foi aquela só com percussão", diz o colega, se referindo a Peaux, de Iannis Xenakis.

Oito anos de idade, um menino corre em direção ao palco do auditório de um antigo hospital do bairro da Abernéssia. Ao ouvir seu nome, quase tropeçando no tênis de velcro que se embanana na barra da calça, quer receber o livro que nas próximas semanas vai ajudá-lo em sua introdução ao mundo da música. Depois, com os colegas, forma a roda, e canta e dança ao som de antiga melodia folclórica israelense, puxada por alunos de pedagogia e música.

As três cenas, juntas, querem formar um roteiro novo para o Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão. Ao longo de 40 anos de história, o evento se reinventou diversas vezes; agora, busca outra cara apoiado no tripé pedagogia, música nova e trabalho social, processo iniciado no ano passado, quando passou a ser comandado pela Santa Marcelina Cultura, organização social que controla ainda a Escola de Música do Estado de São Paulo e boa parte do Projeto Guri, projeto de formação musical.

Dois termos se adicionam à mistura do "novo Campos" ? integração e institucionalização. A Osesp, por exemplo ? grupo ligado ao Estado, ainda que controlado por outra fundação ?, foi convocada como orquestra residente do festival, com temporada de concertos no alto da serra; e as crianças do Guri têm frequentado as apresentações realizadas em São Paulo. No que diz respeito à institucionalização, a saída do maestro Roberto Minczuk, diretor até o ano passado, foi "vendida" como sinal claro de substituição de uma personalidade forte pela "força de um projeto".

"Estamos começando um processo", diz a irmã Rosane Ghedin, diretora da Santa Marcelina, enquanto checa mensagens em seu iPhone e conversa com o Estado. "Entendemos que as instituições servem às necessidades das pessoas e, por isso, são apolíticas. Nosso compromisso é com o social e, para tanto, tem como objetivo fortalecer as instituições e, assim, criar uma nova cultura."

No palco, a programação já se abre a novas possibilidades. Se medalhões como Nelson Freire, Antonio Meneses ou Maria João Pires continuam a dar colorido especial à agenda, artistas menos conhecidos têm saído do gueto ? e nomes como os integrantes do Quarteto Arditti ou o pianista brasileiro Paulo Álvares, especializados na música contemporânea, passam a atrair alunos e público.

O compositor Silvio Ferraz, diretor artístico do festival, não esconde que também aqui está ainda se tateando. "Estamos atirando para vários lados e sentindo o que essa ampliação de leque nos oferece para os próximos anos", diz. Paulo Zuben, diretor geral, vai além. "O grande sentido de atrair esses artistas a Campos é tê-los aqui para conviver com os bolsistas e não apenas para fazer um ou dois concertos." Outra mudança foi a formatação da orquestra acadêmica, que passa a ser integrada apenas por alunos, que, com o aumento em uma semana na duração do festival, não precisaram trocar aulas por ensaios ? e os concertos de encerramento no final desta semana poderão servir de termômetro.

No orçamento deste ano do festival, que gira em torno de R$ 6,5 milhões, o que significa cerca de 50% de aumento com relação aos anos anteriores, espaço foi dedicado também a uma nova política de contato com a cidade. No concerto de abertura, Irmã Rosane lembrou que se trata de uma das cidades mais pobres do Estado ? e que o contraste entre o glamour do festival e a realidade socioeconômica da região precisa ser diminuído. "A música é um instrumento", diz. "Não apenas pode ser vista como um caminho profissional mas, também, como mote para um trabalho de cidadania."

Os locais. Para tanto, será preciso mexer em um problema antigo. Nas comunidades locais, a percepção é uma só: moradores não apenas não se sentem bem-vindos no festival, como o quadro leva a um ressentimento com relação ao evento. Nem mesmo as conversas e os ingressos a R$ 5 foram suficientes para redefinir o quadro. "É necessária uma mudança mais ampla de cultura", diz Irmã Rosane. "E isso se faz do começo, trabalhando com as crianças e professores da cidade. A capacitação tem como objetivo integrar o festival à comunidade e trabalhar a arte e seu poder de transformação", completa Zuben.

Além das aulas ? e do acompanhamento de assistentes sociais do Projeto Guri ?, um dos pilares da proposta é a construção de um novo complexo ao lado do Auditório Claudio Santoro, que vai abrigar salas de aula, alojamento para bolsistas e salas de concerto, estrutura que fora do festival vai servir a Campos. A princípio previsto para o começo do ano, o início das obras ficou para o segundo semestre. Segundo a secretaria de Cultura, ainda não há data ou mesmo um orçamento definido.

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