Joel Ryan / AP
Joel Ryan / AP

Festival de Veneza: o dia seguinte

Atropelos revelam crise na charmosa e mais antiga mostra do mundo

Luiz Zanin Oricchio ENVIADO ESPECIAL VENEZA, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2010 | 00h00

Como se poderia prever, a ressaca de Veneza veio com choro e ranger de dentes, como nos versos de Alighieri. Nem tanto pela desastrada presidência do júri de Quentin Tarantino, como pelo fiasco dos quatro títulos italianos, ignorados pelos jurados. Aproveitando a onda, os jornais de segunda-feira desancaram a organização e a infraestrutura montada no Lido para receber essa que é uma das principais manifestações artísticas da Europa. Da curadoria da mostra aos hoteleiros e donos de restaurantes venezianos, todos receberam o que lhes era devido. Até o jornal local Il Gazzettino traz artigo feroz, assinado na capa por Tiziano Grazziotin, com um título ameaçador: "O Lido não merece este festival."

Quem saiu em defesa de Tarantino foi o cineasta italiano Gabriele Salvatores (de Mediterrâneo), seu subordinado no júri. Salvatores jura que Quentin teve lá seus excessos, mas não se conduziu de maneira despótica e mostrou-se disposto a ouvir os outros. Diz que Somewhere, de Sofia Coppola e vencedor do Leão de Ouro, não impressionou no início, mas foi subindo no conceito de Tarantino e, por extensão, no dos outros jurados. Acabou por se impor.

Mas, ao defender o presidente (e a si mesmo), Salvatores jogou gasolina na fogueira. Quando lhe perguntaram por que os filmes da casa não foram levados em conta, respondeu que o cinema italiano havia perdido a faculdade de se comunicar com espectadores estrangeiros. "Não emociona mais", disse. Citou La Solitude dei Numeri Primi e disse que teve de explicar a lógica dos personagens aos outros jurados. De Noi Credevamo, épico histórico de Mario Martone sobre o Risorgimento, disse que poderia ser compreendido por um garoto na Itália, mas parecia impenetrável a quem não conhece a história do país. Finalizou com uma estocada: "Espero que este momento inspire uma reflexão do cinema italiano sobre si mesmo."

O próprio Salvatores dá início a essa reflexão: "O nosso cinema tem dois pais poderosos que precisa, não digo matar, mas superar, o neorrealismo e a comédia à italiana." De acordo com o diretor, a influência de ambos funcionam mais como inibição que inspiração para os cineastas contemporâneos. Pode até ser. O fato é que os melhores filmes italianos não foram mostrados em Veneza, como Vincere, de Marco Bellocchio, Gomorra, de Mateo Garrone, e Il Divo, de Paolo Sorrentino. Até um filme original como Sorelle Mai, de Bellocchio, presente na mostra, não estava em concurso. E o único título da casa que provocou polêmica e já foi vendido para vários países, Vallanzasca, de Michele Placido, também não estava na competição principal. Ou seja, há algum problema na curadoria, que leva títulos medianos para a mostra mais importante e distribui os outros pelas demais seções.

Houve quem se queixasse do excesso de filmes italiano no festival - ao todo, 41 particpantes, contando os 4 que disputaram o Leão de Ouro. Um excesso, a julgar pela qualidade apresentada. Vozes dissonantes foram ouvidas. O produtor Domenico Procacci atesta a saúde do cinema italiano com números: "Temos 34% do mercado interno e, com todo o respeito pelo júri, a palavra final quem dá mesmo é o público." Já o crítico Paolo Mereghetti, do Corriere della Sera, acha que esse número grande serve mais para dispersar do que para chamar a atenção sobre os filmes da Itália.

Também nos números se refugiou a dupla diretiva de Veneza (Paolo Baratta, presidente da Bienal, e Marco Müller, diretor do festival), na coletiva dada no dia seguinte à premiação. "Vendemos 13% a mais de ingressos em relação a 2009", disse Müller. E isso, ele ajunta, num ambiente ainda tocado pela crise mundial e prejudicado pelas obras do novo Palácio do Cinema. A dupla exulta ainda a boa cobertura da mídia ("inclusive do exterior"), reflexo do aumento de jornalistas credenciados - mais de 3.400, no total.

De fato, a sensação de quem cobre o festival é de que há sempre mais gente e tudo está mais apertado, agitado e desconfortável. Entrar em determinadas sessões é experiência similar a pegar o metrô na Praça da Sé às 18 h. Ou seja: desconforto não pode ser tomado como índice positivo, mas como superlotação, falta de respeito pelo público, desorganização. Há várias causas para isso. Por causa das obras fecharam uma das salas, mas o número de pessoas e filmes aumentou.

Esse atropelo todo não condiz com a lenda de glamour do mais antigo festival do mundo. Nem combina com o enorme buraco aberto na frente do Cassino (No artigo citado, Grazziotin o chama de "símbolo de uma Itália que não progride"). Combina menos ainda com o fechamento do mitológico Hotel Les Bains (de Morte em Veneza), que, quando reaberto, será transformado em condomínio para milionários. Para 2011 estão previstas reforma e fechamento do Hotel Excelsior - a sede do festival e onde um prato de espaguete pode chegar a 100.

Sem o Les Bains e o Excelsior, afogado em um canteiro de obras, o "chique" de Veneza anda comprometido. Tanto ou mais do que a qualidade dos filmes, italianos ou não, esse é um sinal claro de que o festival está em crise.

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