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Festival de Veneza começa hoje apostando nos clássicos

Com drama de George Clooney, mostra de cinema traz diretores famosos e consagrados

Luiz Zanin Oricchio / VENEZA, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2011 | 00h00

Antes de ver os filmes não dá para saber se Veneza, que começa hoje com Tudo pelo Poder, de George Clooney, conseguirá superar a magnífica safra do seu rival, Cannes, que apresentou duas obras-primas em concurso, A Árvore da Vida, de Terrence Malick, e Melancolia, de Lars von Trier. Mas que a 68.ª mostra veneziana, a mais antiga do mundo, promete, isso ninguém há de negar. Pelo menos é o que se pode deduzir pelos nomes respeitáveis que trazem seus novos filmes para o Lido.

Entre os mais notórios, podem-se citar David Cronenberg com A Dangerous Method, Abel Ferrara com 4:44 Last Day on Earth, William Friedkin com Killer Joe, Philippe Garrel, com Un Été Brulant, Roman Polanski com Carnage, Aleksander Sokurov com Faust. Todos eles conhecidíssimos, ou premiados e membros do panteão do cinema de autor no mundo. Que mais Veneza poderia querer?

Talvez uma seleção italiana forte, mas aí talvez fosse pedir demais, pelo menos se levando em conta o que se tem visto nos últimos anos. Em todo caso, como esperar não custa, são três os concorrentes peninsulares este ano, dois deles pelo menos já conhecidos do cinéfilo mais atento: Cristina Comencini, que apresenta Quando la Notte, e Emmanuelle Crialese, com Terraferma. Fecha a trinca Gian Alfonso Pacinotti com L"Ultimo Terrestre.

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Em falta de nomes fortes no presente, o cinema italiano se lembra de grifes do passado - como é o caso do grande Marco Bellocchio, que recebe um Leão de Ouro pela carreira das mãos de outro cineasta de mesmo porte, Bernardo Bertolucci. É, também, um mea culpa de Veneza, que não tem tratado Bellocchio como ele merece. Apresentando em 2003 seu maravilhoso Bom Dia, Noite, sobre os bastidores do caso Aldo Moro, perdeu para o russo O Retorno. Ano passado, Bellocchio esteve de novo no Lido mostrando, em seção paralela, todo o frescor de um filme intimista como Sorelle Mai, rodado com sua própria família, em sua cidade natal, Bobbio, na Emilia Romagna. Ninguém lhe deu muita bola.

De modo que o Leão de Ouro pela carreira de um dos últimos mestres do cinema em atividade parece mais do que justo: é fundamental para uma cinematografia que já foi grande e decaiu, como a italiana.

No mais, a seleção de Veneza-68 apresenta o padrão clássico imposto pelo diretor da mostra Marco Muller desde que assumiu o cargo em 2004: ao lado da predominância europeia (afinal, trata-se de um festival europeu), Veneza terá muitos norte-americanos e muitos asiáticos. Os primeiros são tidos como fundamentais a qualquer festival, pois fornecem a indispensável aura hollywoodiana, mesmo que venham sob a forma do cinema independente. Os segundos fazem parte da cota particular do diretor, sinólogo de formação e apaixonado pelas coisas do Oriente. Muller está, há muitos anos, intimamente convencido de que a renovação cinematográfica virá da banda oriental e não da ocidental.

Muller sabe também que sua receita de cinéfilo deve ser administrada em conta-gotas - e ao longo de todo o festival. Para abrir o evento, escolheu nome e rosto dos mais conhecidos: George Clooney, amado na Itália, que revela, mais uma vez, sua faceta de diretor com Tudo pelo Poder. O filme é densamente político, pois ambienta-se no frenesi das eleições primárias em Ohio. Traz consigo uma penca de astros do cinema independente como Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti e Marisa Tomei. Clooney já havia participado de Veneza, na condição de cineasta, com seu Boa Noite, e Boa Sorte, evocação dura e sem rodeios da época do macarthismo,

A presença do astro americano não será a única atração da passarela do Lido. Vários outros lá estarão, garantindo ao festival a visibilidade midiática que os patrocinadores exigem. Afinal, parte da conta de Veneza é paga pelo Estado italiano e parte pelas marcas famosas de carros, celulares e perfumes, que gostam de associar suas imagens ao suposto glamour do cinema. E este glamour, no imaginário do planeta, vem, especialmente, dos figurões de Hollywood. Desse modo, as majors, como são chamados os grandes estúdios americanos, mesmo não competindo, ajeitam as coisas para que seus filmes lá estejam, fora de concurso, em sessões especiais, e que as celebridades que deles fazem parte compareçam para dar entrevistas aos jornalistas e acenos aos fãs.

Nessa condição, uma das presenças mais esperadas do Lido será a popstar Madonna, que apresenta seu filme W. E., sobre os amores do rei Edward VIII e a divorciada americana Wallis Simpson. No caso de Madonna, o filme é o de menos. Se for bom, ótimo. Se não for, paciência. Ela vindo, tudo resolvido. E, claro, pensando pelo lado da estrela e do seu estafe, não se pode desprezar um evento como o de Veneza, que reúne mais de três mil profissionais (bem, alguns não tão profissionais assim) de imprensa do mundo todo.

Enfim, o circo está montado e a festa começa hoje.

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