Festival de Teatro de Londrina começa potente e inovador

Sopro, do Grupo Lume, de Campinas, um solo do ator Carlos Simioni dirigido pelo coreógrafo japonês Tadashi Endo é um potente espetáculo, sem palavras, que une a linguagem oriental do butô com a pesquisa de linguagem corpórea do Lume - em especial a mimese. A apresentação foi uma das marcas da abertura do Festival Internacional de Londrina durante o final de semana. A abertura oficial do evento reuniu um grande público - que lotou o Teatro Ouro Verde de 850 lugares para ver o musical Orlando Silva, o Cantor da Multidões, com o ator Tuca Andrada.Em Sopro, quando as luzes se acendem em resistência, o que se vê é um palco inteiramente nu, forrado apenas com um linóleo branco, sobre o qual está o ator, imóvel, vestido num quimono feito de papel manteiga, também branco. A trilha sonora, igualmente assinada por Endo, remete a sons da natureza misturados a um longínquo aboio. Começa aí uma série de movimentos lentíssimos que remetem aos ciclos da natureza. Uma semente que se solta de uma árvore, um rodopio de folha na correnteza de um rio, a resistência de um pequeno ser às pesadas gotas da chuva, um mergulho na terra (sob sonoridade metálica), morte, germinação e renascimento são algumas das associações que as imagens criadas pelo corpo do ator em sintonia com os sons permitem. Mas outras podem imagens podem vir à mente de outros espectadores. Não importa. Sopro é um espetáculo que põe o espectador em sintonia com o tempo dos ciclos da vida, bem diferente do tempo clípico que as metrópoles nos impõem.E pede do público uma fruição cujo canal talvez esteja mais próximo das artes plásticas do que do teatro ocidental. Há momentos em que no palco há apenas forma e emoção. E são os mais belos dessa criação, que talvez só se fragilize justamente em alguns dos momentos nos quais, ao se distanciar da abstração, deixa escapar uma imagem mais óbvia, como de um bebê acalentado.Esse solo é a primeira produção do Núcleo de Festivais, organização que agrega os festivais internacionais de artes cênicas de S. José do Rio Preto, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Porto Alegre e, claro, Londrino. Além do intercâmbio, da união de forças para a ampliar e aprofundar curadoria e atividades de formação, esse Núcleo quer passar a produzir espetáculos. Sopro foi o primeiro e revelou-se um acerto em sua aposta na inovação. Afinal, o Lume é uma grupo inovador em sua origem. Nasceu dentro da Unicamp. Assim como há laboratórios de física e biomédicos, cujo objetivo é ampliar o conhecimento por meio de pesquisa, a Unicam criou um laboratório de artes cênicas e o Lume nasceu aí, dessa idéia, há 21 anos. Sopro é um espetáculo assim, inovador, que pede um espectador igualmente disposto a viver uma experiência não-cotidiana. Como deve ser a boa arte. Vale ressaltar o ´talento´ do público de Londrina. As luzes se apagaram aos poucos na Usina Cultural, espaço onde o Lume se apresentou. Nenhum marketing de patrocinar, nenhuma propaganda, nenhum aviso nem mesmo para desligar celular. Durante 50 minutos de espetáculo, pelo menos na noite de estréia, não se ouvia ruído algum no teatro, ninguém conversou, nenhum celular tocou, poucos se mexeram nas cadeiras. Público atento, que aplaudiu calorosamente ao final. Atitude que merece um bravo! Cenas Curtas O figurino do ator Carlos Simioni, criado por Aldevane Néia, foi todo feito em papel manteiga e consumiu 12 horas de preparação. Como não resiste aos movimentos do ator, precisa ser renovado a cada apresentação, o que consome outro bom número de horas. O sucesso de Regina da GlóriaLívia Falcão que faz sucesso na novela Belíssima no papel de Regina da Glória, empregada de Irene Ravache, mostrou que é sobretudo uma boa atriz de teatro para o público que lotou os 850 lugares do Teatro Ouro Verde para vê-la no espetáculo Caetana. No Nordeste, Caetana é uma dos nomes da morte. Com texto em versos, inspirado na poesia de cordel, e criação na linha cômico-popular, Lívia deu vida a uma divertida rezadeira, que ironiza os medo da morte naqueles a quem ajudar a fazer o passamento. "Não sabia que ir morrer?", pergunta ela em diálgo com sua garrafa de cachaça. "Por que então resiste?" Mas chega o seu momento de morrer, e aí ela tem a mesma reação que condenava nos outros, desde dor de barriga, passando pela tentativa de negociação com a dita - oferece galinha, terra e horta -, até viver um curto período como alma penada, destino dos resistentes à morte. Caetana é interpretada pela modelo Fabiana Pirro, que também faz bonito, sobretudo na manipulação dos vários bonecos que ´contracenam´ com a rezadeira.Palhaços, no Art of DyingA morte, por coincidência, também é tema de outro divertido espetáculo, Art of Dying, criação dos palhaços Paolo Nani e Kristján Ingimarsson. Com muito talento, coreografia de incrível precisão e preparo físico impecável os dois mostraram que pode ser infinita a criatividade humana surpreendendo o público com novas gags a partir de números clássicos.Produção tem que arranjar hotel para cachorrosA Companhia Cena 11, de Florianópolis, que apresenta no Filo o espetáculo skinnerbox fez um pedido inusitado à produção: um hotel para cachorros. Trata-se mesmo de um animal muito especial, a cadela da border collie chamada Nina que é ´dança´ na montagem que a trupe de Santa Catarina traz ao festival, cujo tema gira em torno do comportamento e baseia-se no estudo do psicológo Burhhus Frederic Skinner (1904-1990) que estudou o aprendizado em animais. Em tempo, os demais integrantes da companhia são seres humanos e a cidade de Londrina possui hotel para cães.

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