Festival de Roma termina com foco nos problemas do mundo

3ª edição teve direito até a protestos de estudantes e prova que festival de cinema ‘serve para muita coisa’

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

01 de novembro de 2008 | 14h47

Uma semana depois, tantos protestos pelas praças da cidade, 115mil ingressos vendidos e 15 milhões de euros gastos, a Terceira edição do Festival de Cinema de Roma termina com clima de ‘crescendo, ma non troppo’.   Veja também: Estudantes da Itália rejeitam reformas e tomam escolas Quem tem ginga vai a Roma Ou não. O número de pessoas que passaram pelos locais do festival diminuiu (580mil contra 600 mil, em 2007), mas a quantidade de espectadores aumentou (em 2007, foram 110mil). Se fossem contabilizados os três mil estudantes da Universidade La Sapienza de Roma, que protestaram no fim-de-semana passado em plena entrada do Parco della Musica (a ‘vila’ principal do festival) contra a reforma da educação proposta por Berlusconi, o número certamente seria diferente. Protesto e educação E o que um protesto de estudantes tem a ver com o cinema? "Tudo. Cinema não é cultura? O principal objetivo do Festival de Roma neste ano não era trazer mais público italiano para as sessões em vez de ser um evento só para quem trabalha com cinema? Então? Povo mal educado não tem consciência, nem acesso à cultura", bradou M.B., um dos principais articuladores dos protestos que tomaram as ruas de Roma, e do país, em uma greve geral que parou as escolas e universidades do país nas últimas semanas. Grosso modo, a nova lei, criada em caráter extraordinário, se aprovada, no fim deste mês, irá reduzir drasticamente os investimentos em educação (cerca de 1,5 bilhão de euros em cinco anos), separar alunos estrangeiros de italianos nas salas do ensino básico, demitir mais de 130 mil profissionais do setor e praticamente privatizar a educação italiana. "A escola não é uma empresa. E esta crise financeira não será paga por nós", bradou M.B. Do outro lado, o governo italiano sustenta que a reforma irá dinamizar o sistema educacional, "engessado, burocrático e não competitivo’. "Em alguns anos, os ‘cérebros’ italianos estarão todos estudando no exterior. Esta diáspora já começou. E só tende a piorar. Se em pleno festival de cinema, que tanto mostra ao mundo do que são feitos os italianos, não podemos discutir isso, onde poderemos? Festival também serve para isso", encerrou M.B.Para que serve um festival? De fato. Para que serve mais um festival de cinema? Peter Greenaway, um dos diretores que passaram pelo Parco della Musica durante o festival, após a exibição de seu mais novo filme (o ótimo Rembrandt, J’accuse!), não se conteve e cutucou: "O mundo já tem cerca de 5mil festivais de cinema. Não precisamos de mais nenhum." Será? Com ou sem crise, nesta terceira edição de um festival que ainda busca sua identidade, o país homenageado foi o Brasil. o filme premiado pelo pùblico foi Resolution 819, co-produção Itália, Polônia e França; e o júri, que foi criado para esta edição, escolheu Opium War, do afegão Siddiq Barma como melhor filme. Seja pelo olhar do espectador, seja pelo dos especialistas, é o mundo em que vivemos que ganhou a atenção. Sem contar que a história recente de uma Itália cuja história atual não é das mais animadoras foi contada e recontada nas telas em filmes contundentes como Predappio in Luce, Sangue dei Vinti e O Passado é Uma Terra Estrangeira. O futuro, em um país em que a aprovação geral ao presidente Berlusconi chegou a  60% este ano, mas que cuja lua-de-mel começa a acabar (como bem observou o articulista Massimo Giannini, do La Reppublica), ninguém sabe como será. Filantropia à parte, um festival de cinema serve para, no mínimo , arejar cabeças pensantes. E isso, ao menos, o Festival de Roma ainda o faz, e bem. Há quem diga que é um festival apagado porque o número de celebridades é reduzido em comparação com festivais de ‘tipo A’, como Cannes, Veneza e Berlim. Na lista, Win Wenders, Ed Harris e Viggo Mortensen (que vieram apresentar o  nostálgico, mas ótimo, Apaloosa). A passagem de Viggo também se deu por conta do único filme com uma assinatura brasileira na seleção oficial: Good. Dirigido pelo brasileiro Vicente Amorim (de Caminhando nas Nuvens), Good é uma co-produção Grã-Bretanha – Ucrânia que merece ser visto com olhos atentos quando chegar ao Brasil. Viggo deu provas de que não escolheu este contundente filme de Amorim por acaso. E Amorim prova que sabe caminhar com talento e elegância em nuves distantes. Completando a lista de famosos, Al Pacino (que abriu o festival com uma bela aula de interpretação e recebeu o Troféu Marco Aurelio D’oro pela carreira), Gina Lollobrigida (também homenageada com um Marco Aurelio pela carreira), a trupe do High School Musical. Festival também se faz de badalação. E negócios.     O Brasil em foco Para o Brasil, Roma foi mais que positivo. Dois novos acordos firmados. O primeiro, foi a reafirmação do acordo de co-produção entre os países. O Segundo, uma novissima assinatura do acordo de co–produção entre a Reggione Lazio e São Paulo. No mais, shows de Caetano Veloso, Fiorella Mannoia, sessões de retrospectiva de filmes brasileiros, palestras lotadas. E a sensação de que ainda há um público italiano interessado em descobrir que o cinema brasileiro vai muito além do estilo ‘favela chic’. "Este acordo é o início de um trabalho em conjunto. Aproveitamos o ensejo da homenagem ao cinema brasileiro e, mesmo que rapidamente, elaboramos o memorando que certamente vai dar muitos frutos", comentou o coordenador da Unidade de Fomento e Difusão de Produção do Estado de S . Paulo, André Sturm. "É importante para nós, que temos tanto em comum com a cultura italiana. Sem contar que, sem a revisão do acordo, já conseguimos produzir Estômago. O que não conseguiremos a partir de agora, com tudo mais organizado?", comentaram Claudia da Natividade e Marcos Jorge, produtora e diretor, respectivamente, do primeiro filme fruto do acordo de co-produção Brasil-Itália, que existia desde os anos 70 e que ninguém sabia literalmente, como pôr em prática. Estômago é a prova de que ‘si può fare (é possível). Os novos filmes de André Ristum (que realiza seu primeiro longa-metragem em parceria com a Itália), de Vicente Ferraz (que busca parceiros para seu novo A Montanha – o filme conta a história da participação dos Pracinhas brasileiros na Segunda Guerra), são prova de que os produtores e diretores brasileiros estão literalmente botando a mão na massa e vão utilizar os acordos para colher frutos reais. Em tempos de crise mundial, unir forças estratégicas entre países. Festival de cinema também serve para isso. (A repórter viajou a convite da organização do festival)

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