Festival de Londrina reúne 104 espetáculos

A grande dama do teatro portuguêsMaria do Céu Guerra vaticinou, em entrevista numade suas passagens por Porto Alegre (RS), que no futuro osfestivais de teatro voltariam a ter a importância que tinham naGrécia. "Atualmente, só num festival conseguimos ter um públicorealmente interessado no fenômeno teatral", afirmou a atriz. Averdade é que festivais têm o poder de instaurar um fatocultural na cidade que os abriga, interferindo no olhar doespectador, mais aguçado e curioso nessas ocasiões, e também noseu comportamento - pessoas que nunca se viram trocaminformações nos halls dos teatros. Obviamente, tudo issointerfere na capacidade de fruição e na relação entre palco e platéia,diferença percebida pela atriz portuguesa.Talvez por isso, no mundo inteiro, os melhores festivais ocorramlonge das grandes capitais - Avignon e não Paris, na França;Porto e não Lisboa, em Portugal; Cádiz e não Madri, na Espanha.Até fatores mais banais, como a facilidade, em cidades menores,de deslocamento de um teatro ao outro, influem nisso. No Brasil,não é diferente. A cidade de Londrina, no Paraná, abriga o maisantigo festival do Brasil, com 35 anos de existência. Há bonsfestivais em Porto Alegre, Belo Horizonte, Curitiba e no Recife.São Paulo e Rio jamais conseguiram manter um evento desse tipocom continuidade. Em sua primeira edição, no ano passado, oFestival Internacional de São José do Rio Preto pode se tornarum evento do gênero permanente no Estado.Neste momento, essa "mobilização especial" em torno das artescênicas está acontecendo em Londrina. Cerca de 300 pessoas devários Estados do Brasil e do exterior passam pela cidade estemês para participar da 35.ª edição do Festival Internacional deLondrina (Filo) que começou no dia 1.º e só termina no dia 25.Durante quase um mês, o festival leva à cidade 104 espetáculosdo Brasil e de países como Suíça, Itália, Canadá, Japão, Cuba,Argentina, Uruguai, Chile e Colômbia. Como na edição do anopassado, os espetáculos nacionais concentram-se na primeiraquinzena da programação, enquanto os internacionais fecham oevento.Mas essa divisão não é rígida. Entre os espetáculos já exibidos,está o espanhol Buñuel, Lorca e Dalí, do grupo Teatro DelTemple, que mistura ficção e realidade para falar da relaçãoentre os três artistas espanhóis, numa concepção na linha daestética surrealista. E um espetáculo de Londrina será exibidoamanhã, já em meio à programação internacional - Fando e Lis, de Arrabal, com um grupo de Londrina, Boca de Baco. A escolhanada tem de "bairrismo".Criado há 11 anos, o grupo tem no currículo algumas boasmontagens, entre elas da peça Abajur Lilás, de Plínio Marcos, elogida pelo autor, na ocasião convidado a ir a Londrina. Fandoe Lis, que já fez uma temporada-relâmpago no Tusp de São Paulo,tem direção do paulista Luiz Valcazaras, mesmo diretor de AnjoDuro, monólogo interpretado por Berta Zemel. Em sua concepção,Valcazaras optou por reforçar a passividade da personagemfeminina na peça que enfoca a crueldade e a intensainterdependência na tradicional relação entre opressor e oprimido,vivida pelo casal Fando e Lis. A peça tem pelo menos uma cenadaquelas que ficam na memória - a de abertura, na qual um trio deandarilhos discute sobre o vento enquanto se prepara para dormirnum banco de praça. Fiel ao espírito do texto, Valcazaras criouuma coreografia de gestos precisos e não naturalistas, umaespécie de dança de "acomodação para dormir" dos três nobanco. Paradoxalmente, não sendo realista, abre novaspossibilidades de leitura, imprimindo clareza e realidade a umdiálogo aparentemente sem sentido sobre a direção do vento.Dança - Chama atenção o predomínio da dança contemporânea naprogramação deste ano. Entre os espetáculos já exibidos,destacaram-se o coreógrafo Sandro Borelli, que mostrou emLondrina sua mais recente criação, Jardim de Tântulo, com acompanhia F.A.R-15. E o melhor da cena internacional ainda estápor vir. É grande a expectativa em torno de Hermosura, dacompanhia argentina El Descueve, o grande destaque do Festivalde Dança Contemporânea de Buenos Aires. Ousado, o espetáculoexplora fantasias eróticas com imagens fortes e cruas. "Oobjetivo do grupo é atingir os sentidos do espectador, mas paraprovocar perguntas, não dar respostas", diz a produtoraAlejandra Menalled sobre o espetáculo que será apresentado nasegunda-feira.Um misto de cinema, dança e teatro é a linguagem escolhida pelacompanhia suíça Buissonnière para encenar Orlando, deVirginia Woolf, um espetáculo que promete forte impacto visual eterá duas apresentações, no sábado e no domingo. Do Japão, vemum tradicional grupo de bonecos, o Koryu Nishikawa, e a guerra,sob o ponto de vista de crianças, é o tema de Histórias deFamília, peça da sérvia Biljana Srbljanovic que chega aofestival na encenação de um grupo chileno - duas outras atraçõesque prometem se destacar na vasta programação do Filo 2002.

Agencia Estado,

14 de maio de 2002 | 16h49

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