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Festival de Gramado sob nova direção

Na 40ª edição, tradicional mostra gaúcha de filme tenta construir uma nova página de sua história

LUIZ ZANIN ORICCHIO - O Estado de S.Paulo,

10 de agosto de 2012 | 03h10

Gramado, agora sob nova direção. Como alguns estabelecimentos, que reabrem repaginados, o Festival de Cinema de Gramado começa hoje o que se espera seja uma nova página de sua história. Entre as mudanças, a principal, a troca de curadoria, peça-chave na estrutura de qualquer festival de cinema digno desse nome. Sai a dupla carioca Sergio Sanz e José Carlos Avellar, que ditou as regras nos últimos anos, e entra um triunvirato formado pelo ator cearense-carioca José Wilker, e dois críticos, o paulista Rubens Ewald Filho e o gaúcho Marcos Santuário. O resultado, o público e a crítica começam a ver a partir de hoje à noite, quando será apresentado, fora de concurso, 360, o novo filme do badalado diretor Fernando Meirelles (de Cidade de Deus e Ensaio Sobre a Cegueira).

A partir de amanhã, começam a rolar as mostras competitivas de longas-metragens. São duas, uma brasileira, outra de filmes latinos. Com júris e prêmios próprios. A brasileira terá oito longas-metragens em disputa pelos tradicionais troféus do festival gaúcho, os Kikitos. Entre eles, nada menos que quatro de São Paulo: Super Nada, de Rubens Rewald, O Que Move, de Caetano Gotardo, O Futuro do Pretérito: Tropicalismo Now, de Ninho Moraes e Francisco César Filho, e Colegas, de Marcelo Galvão; um gaúcho, Insônia, de Beto Souza, um pernambucano, O Som ao Redor, de Kleber Mendonça, e dois cariocas, Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo com a Minha Vida, de Matheus Souza, e Jorge Mautner - O Filho do Holocausto, de Pedro Bial e Heitor D'Alicourt. Dos oito, seis inéditos. Só não o são os dois documentários, já exibidos no Cine PE (Jorge Mautner) e no Cine Ceará (Tropicalismo Now).

Na mostra latina, os Kikitos serão disputados por cinco concorrentes, de quatro países diferentes - o Chile tem dois inscritos, Calafate - Zoológicos Humanos, de Hans Mulchi Bremer, e Leontina, de Boris Peters. Compõem a seleção Vinci, de Eduardo Del Llano Rodriguez (Cuba), Artigas, la Redota, de César Charlone (Uruguai), e Diez Veces Venceremos, de Cristian Jure (Argentina). Todos inéditos, com exceção de Artigas, exibido na Mostra de São Paulo e no Festival Latino-americano (SP). Charlone é uruguaio, residente no Brasil, e fotógrafo de Cidade de Deus.

Concorrem também 14 curtas, sendo 9 de São Paulo, 2 do Rio Grande do Sul, 1 de Minas, 1 de Santa Catarina, e 1 da Bahia. Como se vê, São Paulo está bem na fita neste remodelado Festival de Gramado.

Mas o que será o novo Gramado, em sua 40.ª edição? Problemas não faltam. Alguns de ordem geral, que afetam os eventos similares no Brasil, e outros de ordem particular. Gramado forma, ao lado do de Brasília, a dupla dos mais tradicionais e respeitados festivais de cinema. Em sua época de glória, os dois competiam entre si pelos melhores filmes. Agora, devem disputar espaço entre dezenas de outros eventos do gênero, que se alastraram pelos quatro cantos do País. A busca por um filme inédito passou a ser uma caça ao Graal.

Para sorte de Gramado, e dos outros festivais, o de Paulínia, bicho-papão pelos prêmios que concedia aos concorrentes, fechou as portas por obra e graça da atual administração da cidade. Sobraram filmes no mercado dos festivais. Gramado e Brasília agradecem. Dessa forma, Gramado, que também atravessa problemas específicos, como denúncias de malversação de verbas, pode ostentar seleção folgada, composta quase inteiramente por inéditos.

Seu outro desafio será recuperar a relevância artística, processo que, a bem da verdade, já havia começado na gestão de Avellar e Sanz como curadores. Quando a dupla foi contratada, Gramado se encontrava no ponto mais baixo de sua credibilidade. Privilegiava mais a badalação do que os filmes. Artista da Globo era rei, ou rainha, no pedaço. O festival, em si, perigava virar mero detalhe em meio ao oba-oba global. Com a curadoria dos cariocas, fez-se caminho contrário, privilegiando filmes autorais e de pouca expressão no mercado. Nem por isso o glamour artificial se dissipou.

Criou-se uma mostra esquizofrênica. Muita agitação na rua com a chegada "dos artistas" e salas às moscas durante as sessões. Há, em Gramado, essa curiosa instituição do tapete vermelho rodeado por fãs abrigados do frio sob uma rua coberta com toldo de vidro e conduzindo a uma sala ocupada por quatro gatos pingados.

O Palácio dos Festivais ficava vazio não apenas pelo desinteresse do grande público pelo que por lá passava, mas pelo preço escorchante dos ingressos. Agora, baixou-se o valor e a seleção de filmes promete ser de qualidade, porém acessível. Veremos se Gramado, tão dividido nos últimos anos, consegue unir-se em torno de um projeto coeso.

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